Os reis de Portugal

De Afonso Henriques a D. Manuel II: 771 anos, quatro dinastias e uma árvore com mais ramos tortos do que parece.

Uma dinastia é uma família no trono. Enquanto a coroa passa de pai para filho — ou para um irmão, uma filha, um primo —, a dinastia continua. Quando a coroa salta para outra família, começa uma nova. Portugal teve quatro.

Em cada rei, o traço que o liga ao anterior diz o parentesco. Os que estão a tracejado são reinados contestados: houve quem os aclamasse, mas a maioria dos historiadores não os conta.

1.ª dinastia

Borgonha (ou Afonsina)

1139 – 1383

Os descendentes do conde D. Henrique, um cavaleiro da Borgonha, e de D. Teresa. Fizeram o reino e fecharam-lhe o mapa.

  1. filho do conde D. Henrique e de D. Teresa

    1139–1185

    Afonso I

    Afonso Henriques

    «o Conquistador»

    O primeiro rei. Foi à guerra contra a mãe, chamou-se rei depois de Ourique e tomou Lisboa em 1147.

    Casou com
    Mafalda de Saboia
    Sepultura
    Santa Cruz, Coimbra

    Capítulo 1.1 →Capítulo 1.2 →Capítulo 1.3 →

  2. filho de Afonso I

    1185–1211

    Sancho I

    «o Povoador»

    Povoou o interior: fundou a Guarda em 1199 e deu forais a muitas vilas. Tomou Silves com cruzados em 1189.

    Casou com
    Dulce de Aragão
    Sepultura
    Santa Cruz, Coimbra
  3. filho de Sancho I

    1211–1223

    Afonso II

    «o Gordo (tradição)»

    Fez testamento em português em 1214 — o mais antigo documento de um rei na nossa língua que chegou até nós.

    Casou com
    Urraca de Castela
    Sepultura
    Alcobaça

    Capítulo 1.4 →

  4. filho de Afonso II

    1223–1248

    Sancho II

    «o Capelo»

    Rei com uns treze anos, conquistou meio Alentejo — e em 1245 o Papa entregou o governo ao irmão.

    Casou com
    Mécia Lopes de Haro
    Sepultura
    Catedral de Toledo

    Capítulo 1.5 →

  5. irmão de Sancho II

    1248–1279

    Afonso III

    conde de Bolonha

    Afastou o irmão, chegou a Faro em 1249 e fechou o mapa: com ele, «rei de Portugal e do Algarve» passou a ser título para ficar.

    Casou com
    Matilde de Bolonha; Beatriz de Castela
    Sepultura
    Alcobaça

    Capítulo 1.5 →Capítulo 1.6 →

  6. filho de Afonso III

    1279–1325

    Dinis

    «o Lavrador»

    Criou em 1290 o Estudo Geral, a semente da universidade, e acertou a fronteira com Castela em Alcanizes (1297).

    Casou com
    Isabel de Aragão, a Rainha Santa
    Sepultura
    Odivelas
  7. filho de Dinis

    1325–1357

    Afonso IV

    «o Bravo»

    Lutou na batalha do Salado (1340), reinou no tempo da peste negra e mandou matar Inês de Castro.

    Casou com
    Beatriz de Castela
    Sepultura
    Sé de Lisboa
  8. filho de Afonso IV

    1357–1367

    Pedro I

    «o Justiceiro (ou o Cruel)»

    O de Inês de Castro: quando foi rei, mandou executar com crueldade dois dos que a mataram.

    Casou com
    Constança Manuel; Inês de Castro (casamento que ele próprio afirmou)
    Sepultura
    Alcobaça
  9. filho de Pedro I

    1367–1383

    Fernando I

    «o Formoso»

    Três guerras com Castela e leis para pôr a terra a render e os barcos no mar. Morreu deixando só uma filha, casada com o rei de Castela.

    Casou com
    Leonor Teles
    Sepultura
    Convento do Carmo, Lisboa (vindo de Santarém)
  10. filha de Fernando I

    1383–1385

    Beatriz

    Reinado contestado: a historiografia portuguesa não a conta entre os reis.

    Proclamada rainha à morte do pai, com a mãe como regente. A revolta de Lisboa e Aljubarrota afastaram-na.

    Casou com
    João I de Castela

1383–1385: dois anos sem rei certo. Lisboa revolta-se, as cortes de Coimbra escolhem o Mestre de Avis e Aljubarrota decide o resto.

2.ª dinastia

Avis

1385 – 1580

Começa com um filho bastardo que era mestre de uma ordem militar e acaba com um cardeal sem filhos. Pelo meio, Ceuta, Tordesilhas e o caminho para a Índia.

  1. filho bastardo de Pedro I, meio-irmão de Fernando

    1385–1433

    João I

    Mestre de Avis

    «o de Boa Memória»

    Ganhou Aljubarrota com Nuno Álvares e os ingleses, e depois foi conquistar Ceuta (1415).

    Casou com
    Filipa de Lencastre
    Sepultura
    Batalha
  2. filho de João I

    1433–1438

    Duarte

    «o Eloquente»

    O rei que escrevia livros. O ataque a Tânger falhou e o irmão, o infante D. Fernando, morreu cativo.

    Casou com
    Leonor de Aragão
    Sepultura
    Batalha
  3. filho de Duarte

    1438–1481

    Afonso V

    «o Africano»

    Rei aos seis anos. Conquistou praças no Norte de África e ainda quis ser rei de Castela.

    Casou com
    Isabel de Coimbra; Joana de Castela
    Sepultura
    Batalha
  4. filho de Afonso V

    1481–1495

    João II

    «o Príncipe Perfeito»

    Negociou o Tratado de Tordesilhas (1494), que dividiu o mundo por descobrir com Castela.

    Casou com
    Leonor de Viseu
    Sepultura
    Batalha
  5. primo e cunhado de João II

    1495–1521

    Manuel I

    «o Venturoso»

    No reinado dele Vasco da Gama chegou à Índia por mar (1498).

    Casou com
    Isabel e Maria de Aragão; Leonor de Áustria
    Sepultura
    Jerónimos
  6. filho de Manuel I

    1521–1557

    João III

    «o Piedoso»

    Deixou entrar a Inquisição em Portugal (1536).

    Casou com
    Catarina de Áustria
    Sepultura
    Jerónimos
  7. neto de João III

    1557–1578

    Sebastião

    «o Desejado»

    Rei aos três anos. Morreu — ou desapareceu — em Alcácer Quibir, sem filhos, e o país ficou sem herdeiro.

    Sepultura
    Jerónimos (sem certeza de que seja ele)
  8. tio-avô de Sebastião

    1578–1580

    Henrique

    o Cardeal-Rei

    Cardeal e inquisidor-mor, chegou a rei aos 66 anos e morreu dois anos depois sem deixar sucessor.

    Sepultura
    Jerónimos
  9. sobrinho do Cardeal-Rei (neto bastardo de Manuel I)

    1580

    António

    Prior do Crato

    Contestado: a maioria dos historiadores não o conta como rei.

    Aclamado rei pelos seus em 1580, perdeu em Alcântara e ainda tentou a sorte nos Açores, onde a frota dele foi desfeita em 1582.

1580: Filipe II de Espanha, neto de D. Manuel I pela mãe, herda a coroa — e entra com um exército para a segurar.

3.ª dinastia

Filipina (Habsburgo)

1580 – 1640

Três reis de Espanha que também foram reis de Portugal. O reino continuou separado — foi o que Filipe I jurou em Tomar —, mas o rei vivia em Espanha.

  1. sobrinho do Cardeal-Rei (a mãe era filha de D. Manuel I)

    1581–1598

    Filipe I

    Filipe II de Espanha

    «o Prudente»

    Herdou pela mãe portuguesa e, nas cortes de Tomar (1581), jurou governar Portugal como reino à parte.

    Casou com
    quatro mulheres, entre elas Maria I de Inglaterra
    Sepultura
    Escorial, Espanha
  2. filho de Filipe I

    1598–1621

    Filipe II

    Filipe III de Espanha

    Deixou quase todo o poder nas mãos do seu valido, o duque de Lerma.

    Casou com
    Margarida de Áustria
    Sepultura
    Escorial, Espanha
  3. filho de Filipe II

    1621–1640

    Filipe III

    Filipe IV de Espanha

    Era o rei quando Portugal se revoltou, em 1640, e voltou a ter rei próprio. Viveu até 1665 sem o aceitar.

    Casou com
    Isabel de Bourbon; Mariana de Áustria
    Sepultura
    Escorial, Espanha

1 de dezembro de 1640: um grupo de nobres revolta-se em Lisboa e aclama o duque de Bragança. Espanha só reconhece a independência em 1668.

4.ª dinastia

Bragança

1640 – 1910

Os duques de Bragança, descendentes de D. Manuel I. Restauraram a independência, fugiram para o Brasil, fizeram uma guerra civil entre irmãos e acabaram com um rei de vinte anos no exílio.

  1. sem parentesco próximo; trineto de D. Manuel I

    1640–1656

    João IV

    duque de Bragança

    «o Restaurador»

    O duque feito rei em 1640: com ele Portugal voltou a ter rei próprio.

    Casou com
    Luísa de Gusmão
    Sepultura
    São Vicente de Fora, Lisboa
  2. filho de João IV

    1656–1683

    Afonso VI

    «o Vitorioso»

    No reinado dele Espanha reconheceu a independência (1668) — mas o irmão tirou-lhe o poder e casou com a mulher dele.

    Casou com
    Maria Francisca de Saboia (casamento anulado)
    Sepultura
    São Vicente de Fora, Lisboa
  3. irmão de Afonso VI

    1683–1706

    Pedro II

    «o Pacífico»

    Governou como regente no lugar do irmão a partir de 1668, casou com a ex-cunhada e só foi rei quando o irmão morreu.

    Casou com
    Maria Francisca de Saboia; Maria Sofia de Neuburgo
    Sepultura
    São Vicente de Fora, Lisboa
  4. filho de Pedro II

    1706–1750

    João V

    O ouro do Brasil encheu-lhe os cofres, e ele gastou-o em grande — com o convento de Mafra à cabeça.

    Casou com
    Maria Ana de Áustria
    Sepultura
    São Vicente de Fora, Lisboa
  5. filho de João V

    1750–1777

    José I

    O rei do terramoto de 1755. Depois disso, não quis voltar a viver entre paredes de pedra.

    Casou com
    Mariana Vitória de Bourbon
    Sepultura
    São Vicente de Fora, Lisboa
  6. filha de José I

    1777–1816

    Maria I

    Reinou quase quarenta anos, mas a doença mental pôs o filho a governar por ela; morreu no Rio de Janeiro.

    Casou com
    Pedro III, seu tio — rei por casamento
    Sepultura
    Basílica da Estrela, Lisboa
  7. filho de Maria I

    1816–1826

    João VI

    Fugiu de Napoleão em 1807 e levou a corte para o Brasil: durante anos, o Rio de Janeiro foi, na prática, a capital.

    Casou com
    Carlota Joaquina de Bourbon
    Sepultura
    São Vicente de Fora, Lisboa
  8. filho de João VI

    1826

    Pedro IV

    Pedro I do Brasil

    Rei de Portugal só dois meses: já era imperador do Brasil e abdicou na filha, de sete anos.

    Casou com
    Maria Leopoldina de Áustria; Amélia de Leuchtenberg
    Sepultura
    corpo em São Paulo, Brasil; coração na Lapa, Porto
  9. filha de Pedro IV

    1826–1853

    Maria II

    Rainha aos sete anos, afastada pelo tio em 1828, de volta em 1834 depois da guerra civil. Morreu de parto aos 34 anos.

    Casou com
    Augusto de Beauharnais; Fernando II de Saxe-Coburgo — rei por casamento
    Sepultura
    São Vicente de Fora, Lisboa
  10. tio de Maria II

    1828–1834

    Miguel I

    Contestado: reinou de facto entre 1828 e 1834, mas os liberais chamavam-lhe usurpador e, em Évora-Monte, teve de renunciar ao trono e partir para o exílio.

    Veio como regente da sobrinha e fez-se rei absoluto. Acabou em guerra civil com o irmão e em 32 anos de exílio.

    Casou com
    Adelaide de Löwenstein (no exílio)
    Sepultura
    São Vicente de Fora, Lisboa (desde 1967)
  11. filho de Maria II

    1853–1861

    Pedro V

    «o Esperançoso»

    Rei aos 16 anos, viúvo pouco depois, morto aos 24 de uma epidemia — febre tifoide ou cólera, as fontes não batem certo.

    Casou com
    Estefânia de Hohenzollern
    Sepultura
    São Vicente de Fora, Lisboa
  12. irmão de Pedro V

    1861–1889

    Luís I

    Não era para ser rei: chegou ao trono porque o irmão morreu novo e sem filhos.

    Casou com
    Maria Pia de Saboia
    Sepultura
    São Vicente de Fora, Lisboa
  13. filho de Luís I

    1889–1908

    Carlos I

    Morto a tiro em Lisboa, a 1 de fevereiro de 1908, numa carruagem aberta, com o filho mais velho.

    Casou com
    Amélia de Orleães
    Sepultura
    São Vicente de Fora, Lisboa
  14. filho de Carlos I

    1908–1910

    Manuel II

    Rei aos 18 anos, depois de o pai e o irmão serem mortos a tiro. Dois anos depois, a República mandou-o para o exílio.

    Casou com
    Augusta Vitória de Hohenzollern (já no exílio)
    Sepultura
    São Vicente de Fora, Lisboa (trazido de Inglaterra)

5 de outubro de 1910: a República. Manuel II morreu no exílio, em Inglaterra, em 1932. Portugal nunca mais teve rei.

Notas e fontes

Mostramos só os anos de cada reinado: os dias exatos nem sempre batem certo de uma fonte para outra. Atenção também às alcunhas — nem todas são do tempo do rei; a de Afonso II, «o Gordo», por exemplo, é tradição. Só pomos as que encontrámos nas fontes abaixo.

Os retratos de Afonso Henriques a Filipe II foram gravados por Pedro Perret em 1603 — para quase todos, séculos depois de terem morrido; são, por isso, imaginados. Os de Filipe III a D. Luís vêm de uma coleção de litografias do século XIX; os de D. Carlos e D. Manuel II são fotografias. Passámo-los todos a gravura, para ficarem da mesma família.