1.6 Conquista do Algarve · 1249–1267

O Algarve custou um cerco, um casamento a mais e dezoito anos de espera

Em 1249, com Faro, o Algarve fica quase todo português. Mas o rei de Castela também queria o Algarve, e a paz fez-se com um casamento — o problema é que o rei português já era casado. Um interdito do Papa, uma condessa abandonada em França e um neto criança a fechar o negócio.

1249Silves · Faro · Badajoz12 min English
A cidade de Silves com o castelo, as muralhas e a ponte sobre o rio Arade, numa gravura de 1842
A cidade de Silves com o castelo, as muralhas e a ponte sobre o rio Arade, numa gravura de 1842
«Cidade de Silves», O Panorama (1842) · Wikimedia Commons, domínio público

Último capítulo da Temporada 1. O mapa de Portugal vai ficar fechado — mas não de uma vez, nem só com espadas. Esta história tem dois reis com o mesmo nome, duas mulheres para o mesmo rei e um neto criança. Por isso, como no capítulo anterior, primeiro pomos toda a gente na mesa.

Quem é quem

E a história em lista, para consultares:

Primeiro, o mapa

Em 1248, quando o conde passou a rei, Portugal ia do Minho até ao Algarve — mas o Algarve ainda não estava todo. No reinado do irmão, Sancho II, a Ordem de Santiago já tinha tomado Tavira e Cacela, no lado de leste. O resto — Faro, Loulé, Albufeira, a costa até ao cabo — ainda era terra muçulmana.

O nome diz tudo. Algarve vem do árabe al-gharb, «o ocidente»: era o oeste do al-Andalus, a terra muçulmana da Península.

Antes: Silves, 1189

Para perceber o Algarve, temos de recuar sessenta anos, até ao avô do nosso rei, Sancho I. E aqui, como em Lisboa no capítulo 1.3, há um cruzado que esteve lá e escreveu tudo.

Em 1189, uma frota de cruzados do norte da Europa ia a caminho da Terra Santa. O autor chama-se a si próprio «teutónico»; no relato aparecem homens de Bremen, flamengos e alguns ingleses. Pararam em Lisboa, e o rei Sancho I convidou-os para uma conquista: Silves, a maior cidade do Algarve. O acordo era o do costume: a cidade para o rei, as coisas que se pudessem levar para os cruzados.

O cruzado ficou impressionado. Silves, escreve ele, era do tamanho de Goslar, uma cidade da terra dele, mas com muito mais casas — e «muito mais forte do que Lisboa, e dez vezes mais rica».

O cerco durou, nas contas dele, seis semanas e três dias. A cidade bebia de um poço protegido por uma muralha com quatro torres, a que chamavam a Couraça. Quando os cruzados a tomaram, entupiram o poço com pedras e terra. A partir daí, foi a sede.

E o cruzado conta sem esconder:

A rendição dizia que os moradores saíam só com a roupa do corpo. Mas, à saída, alguns dos cruzados roubaram-nos, e de noite alguns moradores, «contra os ajustes», foram torturados para mostrarem onde tinham o dinheiro. No fim, o rei ficou com tudo — o cruzado queixa-se: «ElRei porem tomando tudo para si, nada nos deixou». Os cruzados foram-se embora zangados. O rei ainda lhes pediu que o ajudassem a tomar outra vila ali perto, a que chamavam Santa Maria de Faraon. Recusaram. Os historiadores identificam-na com Faro.

Dois anos depois, em 1191, um grande exército almóada, vindo de Marrocos, retomou Silves. O Algarve voltou a ser muçulmano.

1249: Faro

E chegamos ao nosso rei. Na primavera de 1249, escreve Herculano, Afonso III «avançou rapidamente para o Algarve». Levava o tio, o infante D. Pedro, os cavaleiros da Ordem de Santiago, o mestre de Avis e alguns nobres.

Em março de 1249, Faro — Santa Maria de Faro — já estava nas mãos dos cristãos. Herculano sabe-o por um documento: uma doação do rei «dada em Santa Maria de Faro» nesse mês. A Câmara de Faro e o inventário oficial do património dão o dia: 29 de março. Logo a seguir, Albufeira, Porches e outros lugares tiveram a mesma sorte. O rei deixou o resto às ordens militares e voltou para Coimbra.

Agora, honestidade: os historiadores ainda discutem quem fez o quê em Faro. Uns deram o mérito todo ao rei; outros negaram-lhe qualquer papel e deram tudo à Ordem de Santiago. Dois historiadores, Henrique David e Sotto Mayor Pizarro, recusaram as duas pontas: o rei teve papel, e a presença de Paio Peres Correia é «muito provável». O que se sabe com certeza é o mês: março de 1249.

O problema: Castela também queria o Algarve

O Algarve estava quase todo nas mãos de Portugal. Mas o rei de Castela, ali ao lado, achava que o Algarve devia ser dele. Em 1250 e em 1252 houve guerra.

E a paz fez-se como muitas pazes daquele tempo: com um casamento. O nosso rei casava com Beatriz, a filha do rei de Castela — ainda uma criança. E em troca, o rei de Castela ficava com o usufruto do Algarve — os rendimentos, o controlo — até o primeiro filho desse casamento fazer sete anos. Depois disso, o Algarve voltava inteiro para Portugal.

Em meados de maio de 1253, em Chaves, o nosso rei recebeu Beatriz por mulher.

Só havia um problema. Já era casado.

A condessa abandonada

Matilde, a condessa de Bolonha — a mulher que lhe tinha dado o título de conde em França — estava viva. E não se calou: mandou ao Papa queixas «enérgicas», escreve Herculano.

Em 1255, o Papa Alexandre IV mandou o rei apresentar-se na corte papal no prazo de quatro meses. O rei não foi, nem largou Beatriz. Então o Papa lançou um interdito.

Um interdito era um castigo duro naquela época: onde quer que o rei e a rainha estivessem, paravam os ofícios divinos — as missas. Os bispos portugueses, numa carta ao Papa em 1262, queixaram-se precisamente disso: do escândalo e do perigo para as almas que isso trazia.

A tradição conta que Matilde veio ela própria a Portugal tentar recuperar o marido. Herculano: «De tudo isso nos faltam monumentos» — não há documentos.

Matilde morreu em 1258 (ou no princípio de 1259 — as fontes não batem certo). Nessa mesma carta de 1262, os bispos pediram ao Papa que levantasse o interdito, aceitasse o casamento e tornasse legítimos os filhos do rei, para poderem herdar o reino. Não se conhece a resposta do Papa, escreve Herculano — mas sabe-se, por outros documentos, que o pedido foi atendido: os filhos foram tidos por legítimos, e Dinis herdou o reino.

O neto fecha o negócio

Com o casamento resolvido e o filho nascido — Dinis —, faltava o Algarve.

Em 1263 fez-se a paz com Castela, e em 1264 o rei de Castela abdicou de quase todos os direitos que guardava.

Sobrava um último fio por cortar: por causa do Algarve, Portugal devia ao rei de Castela cinquenta cavaleiros sempre que ele os pedisse. Antes de Badajoz, o rei mandou a Castela Dinis, ainda criança, à frente de uma ajuda militar, a pedir ao avô que acabasse com essa obrigação. Os pormenores, diz Herculano, são das crónicas e cheiram a lenda; mas os documentos mostram que resultou.

A 16 de fevereiro de 1267, em Badajoz, os dois reis assinaram o acordo final:

Em março de 1268, Afonso III começou a assinar «rei de Portugal e do Algarve». Herculano acrescenta: um título que o avô, Sancho I, já tinha usado por uns tempos depois de Silves, e que os sucessores «nunca mais perderam».

O resto do reinado

Afonso III ainda reinou mais de dez anos. Duas coisas que vale a pena saber:

No fim da vida fez as pazes com a Igreja, com quem também tinha andado em guerra. A 17 de janeiro de 1279, a morrer, jurou obediência ao Papa e foi absolvido. Morreu um mês depois, a 16 de fevereiro, antes de o galo cantar. O documento que o regista já lhe chama rex Portugalie et Algarbii — rei de Portugal e do Algarve.

O conde que veio de França para ficar com o reino do irmão deixou-o maior do que o encontrou. E deixou o filho, Dinis, que é por onde começa a próxima temporada.

Antes · 1249

Em 1249, com Faro, o mapa de Portugal fica quase completo no sul. Para ficar fechado faltavam dezoito anos de guerra, diplomacia e um casamento que o Papa não aceitava.

Hoje · 2026

Na foz do Guadiana, entre Vila Real de Santo António e Ayamonte, o rio ainda é a fronteira — a mesma que o tratado de Badajoz fixou em 1267, pelo curso do Guadiana até ao mar.

Mesma história. Outro ponto de vista.
Nota do autor

O Algarve foi o último pedaço a entrar. Hoje é o primeiro que os estrangeiros conhecem.

Fontes — O que lemos de facto para escrever este capítulo. Como verificamos → Para ler mais

Uma história por semana, no teu email

Grátis. Sem spam. Sais quando achares que já sabes o suficiente.