Último capítulo da Temporada 1. O mapa de Portugal vai ficar fechado — mas não de uma vez, nem só com espadas. Esta história tem dois reis com o mesmo nome, duas mulheres para o mesmo rei e um neto criança. Por isso, como no capítulo anterior, primeiro pomos toda a gente na mesa.
Quem é quem
- Afonso III — o rei de Portugal. É «o conde» do capítulo anterior: o irmão de Sancho II, que veio de França e ficou com o reino. Vamos chamar-lhe o nosso rei.
- Matilde — condessa de Bolonha, em França. A primeira mulher de Afonso III, com quem ele casou em 1238. Ficou em França.
- Afonso X — rei de Castela, a quem os espanhóis chamam Alfonso «el Sabio». É o mesmo príncipe que, no capítulo anterior, veio ajudar Sancho II; agora já é rei. Também queria o Algarve. Para não o confundirmos, vamos chamar-lhe sempre o rei de Castela.
- Beatriz — filha do rei de Castela, ainda criança. Vai ser a segunda mulher do nosso rei.
- Paio Peres Correia — mestre da Ordem de Santiago, uma ordem de cavaleiros-monges que fez boa parte das conquistas no sul.
- Dinis — filho do nosso rei e de Beatriz. Neto do rei de Castela. Ainda vai ser rei — na próxima temporada.
E a história em lista, para consultares:
- 1189 — o rei Sancho I toma Silves com a ajuda de cruzados.
- 1191 — os muçulmanos retomam Silves.
- até 1239 — no reinado de Sancho II, Tavira e Cacela já são cristãs.
- anos 1240 — Silves é tomada de vez pela Ordem de Santiago (o ano exato é discutido).
- março de 1249 — Faro passa a ser cristã. Logo depois, Albufeira e Porches.
- 1250 e 1252 — guerras com Castela pelo Algarve.
- maio de 1253 — em Chaves, o nosso rei casa com Beatriz. Ainda estava casado com Matilde.
- 1255 — o Papa chama o rei à corte papal; ele não vai e cai-lhe um interdito.
- 1258 ou 1259 — morre Matilde.
- 1263–1264 — paz com Castela; o rei de Castela larga quase todos os direitos sobre o Algarve.
- 16 de fevereiro de 1267 — tratado de Badajoz: o Guadiana fica fronteira.
- março de 1268 — o nosso rei passa a assinar «rei de Portugal e do Algarve».
- 16 de fevereiro de 1279 — morre Afonso III. Fim da Temporada 1.
Primeiro, o mapa
Em 1248, quando o conde passou a rei, Portugal ia do Minho até ao Algarve — mas o Algarve ainda não estava todo. No reinado do irmão, Sancho II, a Ordem de Santiago já tinha tomado Tavira e Cacela, no lado de leste. O resto — Faro, Loulé, Albufeira, a costa até ao cabo — ainda era terra muçulmana.
O nome diz tudo. Algarve vem do árabe al-gharb, «o ocidente»: era o oeste do al-Andalus, a terra muçulmana da Península.
Antes: Silves, 1189
Para perceber o Algarve, temos de recuar sessenta anos, até ao avô do nosso rei, Sancho I. E aqui, como em Lisboa no capítulo 1.3, há um cruzado que esteve lá e escreveu tudo.
Em 1189, uma frota de cruzados do norte da Europa ia a caminho da Terra Santa. O autor chama-se a si próprio «teutónico»; no relato aparecem homens de Bremen, flamengos e alguns ingleses. Pararam em Lisboa, e o rei Sancho I convidou-os para uma conquista: Silves, a maior cidade do Algarve. O acordo era o do costume: a cidade para o rei, as coisas que se pudessem levar para os cruzados.
O cruzado ficou impressionado. Silves, escreve ele, era do tamanho de Goslar, uma cidade da terra dele, mas com muito mais casas — e «muito mais forte do que Lisboa, e dez vezes mais rica».
O cerco durou, nas contas dele, seis semanas e três dias. A cidade bebia de um poço protegido por uma muralha com quatro torres, a que chamavam a Couraça. Quando os cruzados a tomaram, entupiram o poço com pedras e terra. A partir daí, foi a sede.
E o cruzado conta sem esconder:
- havia quatro dias que os cativos cristãos dentro da cidade não recebiam «mais agua do que cabia na casca d’hum ovo» — e alguns nem isso;
- as mulheres e as crianças «comião terra húmida»;
- dos 450 cativos cristãos que lá estavam quando o cerco começou, só encontraram 200 vivos;
- quando a cidade se rendeu, restavam 15 800 habitantes.
A rendição dizia que os moradores saíam só com a roupa do corpo. Mas, à saída, alguns dos cruzados roubaram-nos, e de noite alguns moradores, «contra os ajustes», foram torturados para mostrarem onde tinham o dinheiro. No fim, o rei ficou com tudo — o cruzado queixa-se: «ElRei porem tomando tudo para si, nada nos deixou». Os cruzados foram-se embora zangados. O rei ainda lhes pediu que o ajudassem a tomar outra vila ali perto, a que chamavam Santa Maria de Faraon. Recusaram. Os historiadores identificam-na com Faro.
Dois anos depois, em 1191, um grande exército almóada, vindo de Marrocos, retomou Silves. O Algarve voltou a ser muçulmano.
1249: Faro
E chegamos ao nosso rei. Na primavera de 1249, escreve Herculano, Afonso III «avançou rapidamente para o Algarve». Levava o tio, o infante D. Pedro, os cavaleiros da Ordem de Santiago, o mestre de Avis e alguns nobres.
Em março de 1249, Faro — Santa Maria de Faro — já estava nas mãos dos cristãos. Herculano sabe-o por um documento: uma doação do rei «dada em Santa Maria de Faro» nesse mês. A Câmara de Faro e o inventário oficial do património dão o dia: 29 de março. Logo a seguir, Albufeira, Porches e outros lugares tiveram a mesma sorte. O rei deixou o resto às ordens militares e voltou para Coimbra.
Agora, honestidade: os historiadores ainda discutem quem fez o quê em Faro. Uns deram o mérito todo ao rei; outros negaram-lhe qualquer papel e deram tudo à Ordem de Santiago. Dois historiadores, Henrique David e Sotto Mayor Pizarro, recusaram as duas pontas: o rei teve papel, e a presença de Paio Peres Correia é «muito provável». O que se sabe com certeza é o mês: março de 1249.
O problema: Castela também queria o Algarve
O Algarve estava quase todo nas mãos de Portugal. Mas o rei de Castela, ali ao lado, achava que o Algarve devia ser dele. Em 1250 e em 1252 houve guerra.
E a paz fez-se como muitas pazes daquele tempo: com um casamento. O nosso rei casava com Beatriz, a filha do rei de Castela — ainda uma criança. E em troca, o rei de Castela ficava com o usufruto do Algarve — os rendimentos, o controlo — até o primeiro filho desse casamento fazer sete anos. Depois disso, o Algarve voltava inteiro para Portugal.
Em meados de maio de 1253, em Chaves, o nosso rei recebeu Beatriz por mulher.
Só havia um problema. Já era casado.
A condessa abandonada
Matilde, a condessa de Bolonha — a mulher que lhe tinha dado o título de conde em França — estava viva. E não se calou: mandou ao Papa queixas «enérgicas», escreve Herculano.
Em 1255, o Papa Alexandre IV mandou o rei apresentar-se na corte papal no prazo de quatro meses. O rei não foi, nem largou Beatriz. Então o Papa lançou um interdito.
Um interdito era um castigo duro naquela época: onde quer que o rei e a rainha estivessem, paravam os ofícios divinos — as missas. Os bispos portugueses, numa carta ao Papa em 1262, queixaram-se precisamente disso: do escândalo e do perigo para as almas que isso trazia.
A tradição conta que Matilde veio ela própria a Portugal tentar recuperar o marido. Herculano: «De tudo isso nos faltam monumentos» — não há documentos.
Matilde morreu em 1258 (ou no princípio de 1259 — as fontes não batem certo). Nessa mesma carta de 1262, os bispos pediram ao Papa que levantasse o interdito, aceitasse o casamento e tornasse legítimos os filhos do rei, para poderem herdar o reino. Não se conhece a resposta do Papa, escreve Herculano — mas sabe-se, por outros documentos, que o pedido foi atendido: os filhos foram tidos por legítimos, e Dinis herdou o reino.
O neto fecha o negócio
Com o casamento resolvido e o filho nascido — Dinis —, faltava o Algarve.
Em 1263 fez-se a paz com Castela, e em 1264 o rei de Castela abdicou de quase todos os direitos que guardava.
Sobrava um último fio por cortar: por causa do Algarve, Portugal devia ao rei de Castela cinquenta cavaleiros sempre que ele os pedisse. Antes de Badajoz, o rei mandou a Castela Dinis, ainda criança, à frente de uma ajuda militar, a pedir ao avô que acabasse com essa obrigação. Os pormenores, diz Herculano, são das crónicas e cheiram a lenda; mas os documentos mostram que resultou.
A 16 de fevereiro de 1267, em Badajoz, os dois reis assinaram o acordo final:
- o rei de Castela largou, sem restrições, todos os direitos sobre o Algarve e mandou entregar os castelos;
- o nosso rei abriu mão de Aroche e Aracena, do outro lado do Guadiana;
- e a fronteira passou a ser o rio Guadiana, desde onde nele entra o rio Caia até ao mar.
Em março de 1268, Afonso III começou a assinar «rei de Portugal e do Algarve». Herculano acrescenta: um título que o avô, Sancho I, já tinha usado por uns tempos depois de Silves, e que os sucessores «nunca mais perderam».
O resto do reinado
Afonso III ainda reinou mais de dez anos. Duas coisas que vale a pena saber:
- Em 1254, nas cortes de Leiria — as grandes reuniões do rei com o reino —, aparecem pela primeira vez, ao lado dos bispos e dos nobres, os «homens bons dos concelhos», os representantes das vilas. Herculano viu aqui uma data importante; é a leitura dele, e muitos a seguiram.
- Lisboa. Diz-se muitas vezes que foi Afonso III quem fez de Lisboa a capital. Mas vejamos os documentos: mostram um rei a andar por todo o reino nos primeiros anos, e depois de 1257 sobretudo entre Coimbra, Santarém e Lisboa. Só a partir de 1270, já doente — talvez de gota —, é que aparece sobretudo em Lisboa.
No fim da vida fez as pazes com a Igreja, com quem também tinha andado em guerra. A 17 de janeiro de 1279, a morrer, jurou obediência ao Papa e foi absolvido. Morreu um mês depois, a 16 de fevereiro, antes de o galo cantar. O documento que o regista já lhe chama rex Portugalie et Algarbii — rei de Portugal e do Algarve.
O conde que veio de França para ficar com o reino do irmão deixou-o maior do que o encontrou. E deixou o filho, Dinis, que é por onde começa a próxima temporada.