1.3 Conquista de Lisboa · 1147

Os cruzados que iam para Jerusalém e ficaram em Lisboa

Cento e tal navios do norte da Europa a caminho da Terra Santa, um bispo do Porto com jeito para vender, quatro meses de cerco — e o relato de um padre que vinha com os ingleses e viu tudo, incluindo o que os seus próprios aliados fizeram quando entraram.

1147Lisboa10 min English
A conquista de Lisboa imaginada por Roque Gameiro em 1917 — com a torre de assalto encostada à muralha
A conquista de Lisboa imaginada por Roque Gameiro em 1917 — com a torre de assalto encostada à muralha
Roque Gameiro, Quadros da História de Portugal (1917) · Wikimedia Commons, domínio público

Senta-te, que esta tem testemunha: um padre que esteve lá e escreveu tudo. Mas antes de ele chegar, é preciso montar o cenário.

Primeiro, o mapa

Estamos em 1147. O rei é Afonso Henriques — o rapaz que foi à guerra contra a mãe no capítulo 1.1, e que em 1140, depois de Ourique, começou a chamar-se rei por conta própria.

O reino dele ainda é pequeno. O norte, do Minho até ao Tejo, em Santarém, é cristão. Para sul começa o território muçulmano, o al-Andalus. A 15 de março desse ano, Afonso tinha acabado de tomar Santarém, de surpresa, num ataque de noite. Mas mais abaixo, na foz do Tejo, ficava a cidade grande, rica e bem muralhada que ele queria a sério: Lisboa.

Já a tinha tentado tomar uns anos antes, por volta de 1142, também com ajuda de estrangeiros. Correu mal. Sozinho, não tinha homens nem navios para cercar uma cidade daquelas.

Quem eram os cruzados

Nessa altura, do outro lado da Europa, tinha começado a Segunda Cruzada. Os cristãos tinham perdido Edessa, uma das cidades que controlavam no Médio Oriente, e o Papa Eugénio III chamou a cristandade às armas. O monge Bernardo de Claraval andou a pregá-la pela Europa fora.

Muita gente partiu por terra. Mas no norte — Inglaterra, Flandres, a região de Colónia, na Alemanha — havia muitos marinheiros e comerciantes habituados ao mar. Esses foram de barco. O caminho era longo: descer a costa da Europa pelo Atlântico, passar o estreito de Gibraltar, atravessar o Mediterrâneo inteiro até à Terra Santa e Jerusalém.

Pelo caminho, tinham de parar para buscar água e comida. E a costa portuguesa estava mesmo no caminho.

Na primavera de 1147, saiu do porto de Dartmouth, no sul de Inglaterra, uma frota enorme: ingleses, normandos, flamengos e homens de Colónia. A nossa testemunha conta uns cento e sessenta e quatro navios. Quase não havia nobres: eram sobretudo gente dos portos, organizada numa espécie de associação jurada, com regras próprias e juízes escolhidos por eles para dividir os lucros.

Num desses navios ia o nosso padre. Não sabemos como se chamava. Durante séculos chamaram-lhe Osberno; mais tarde, houve quem propusesse um padre cruzado chamado Raol. Nenhuma das duas identificações é segura — por isso, aqui, vai ser só o nosso padre. Sabemos que escreveu tudo, em latim, numa carta comprida. É graças a ele que esta história tem pormenores que nenhum cronista português contou.

O bispo vendedor

A viagem começou mal. No golfo da Biscaia, na noite da Ascensão, apanharam uma tempestade tão forte que o padre jura ter ouvido sereias: primeiro um lamento, depois gargalhadas, como soldados a troçar num acampamento.

A 16 de junho chegaram ao Porto. O rei não estava lá: dez dias antes, sabendo que a frota vinha a caminho, tinha partido com o exército para cercar Lisboa. Mas tinha mandado ao bispo do Porto, Pedro Pitões, uma carta a dizer-lhe o que fazer — e a carta tinha chegado ao bispo só na véspera.

No dia seguinte, o bispo juntou os cruzados todos no alto do morro, no adro da Sé, e fez-lhes um sermão. O padre copiou-o. É uma obra-prima de vendas: começa com Deus e a fé, e acaba com a proposta. Se ficassem a ajudar o rei até Lisboa cair, haveria dinheiro do tesouro real — tanto quanto o tesouro permitisse. E se quisessem garantias, o próprio bispo ia com eles como refém.

No Porto não houve grande discussão: esperaram pelos navios que a tempestade espalhara e seguiram para sul, para ouvir o rei.

O acordo

Foi já em Lisboa, frente a frente com o rei, que a coisa azedou. Alguns tinham estado na tentativa falhada de 1142 e não tinham gostado da experiência — e ameaçaram seguir viagem. O tradutor moderno do relato resume bem o tom das conversas: trataram o rei de Portugal sem grandes cerimónias e regatearam as condições. No fim, Afonso Henriques assinou uma carta, que o padre copiou palavra por palavra. Dizia isto:

Em resumo: Afonso ficava com a cidade, e os cruzados com tudo o que lá estivesse dentro. Para garantir o negócio, houve troca de reféns. O cerco podia começar.

O cerco

Antes, porém, houve conversa. O arcebispo de Braga e o bispo do Porto foram falar com os de dentro, ao pé da muralha, e propuseram a rendição. Um velho muçulmano respondeu-lhes, do alto do muro, com uma frase que diz muito: “Quantas vezes, desde que nos lembramos, já vieram aqui com peregrinos e bárbaros para nos expulsar?” O bispo do Porto não negou.

Um aviso, já agora: o próprio tradutor do relato diz que estes discursos foram provavelmente compostos pelo padre, à maneira dos historiadores antigos. Mas a frase do velho bate com o que sabemos: não era a primeira vez.

O padre conta o que lhe disse depois o governador da cidade: lá dentro estariam cento e cinquenta e quatro mil homens, sem contar mulheres e crianças, com gente fugida de Santarém, de Sintra, de Almada e de Palmela. É quase certamente um exagero. Mas o pormenor que vem a seguir não é: havia lanças e escudos só para quinze mil, e as ruas eram tão apertadas que, tirando o bairro dos mercadores, quase nenhuma tinha mais de oito pés de largura. Dois metros e meio.

Quatro meses de cerco

O cerco durou quatro meses e foi feio.

Ao fim de seis semanas, os de dentro já passavam fome. Os cruzados puxaram os navios para terra e baixaram os mastros — um sinal para quem estava nas muralhas: vamos passar cá o inverno.

Os de Colónia cavaram minas debaixo da muralha cinco vezes. Falharam as cinco. Mais tarde fizeram uma com cinco entradas, que levou um mês a abrir e acabou por deitar abaixo um troço do muro.

Lá dentro, escreve o padre, a fome e o cheiro dos mortos atormentavam toda a gente, porque já não havia onde enterrar ninguém. Comiam o lixo que os cruzados deitavam dos navios e que a maré levava até às muralhas.

Os cruzados construíram uma torre de assalto, o arcebispo benzeu-a, e um outro padre (não o nosso), com um pedaço da Santa Cruz nas mãos, jurou ficar lá dentro com eles enquanto vivesse. A torre chegou à muralha, perto da Porta do Ferro. Nessa noite, a maré subiu, rodeou a torre e cortou-a do resto do exército. Os de dentro saíram em duas colunas pela porta, e do alto do muro atiraram contra a torre madeira, pez, linho, azeite, tudo o que ardia.

Entre a torre e a muralha havia um telheiro de vime, a que chamavam «gato galês». Sete rapazes de Ipswich passaram a noite a segurá-lo no lugar. Debaixo dele, outros homens, com a ajuda dos que estavam dentro da torre, apagavam o fogo pedaço a pedaço. A torre aguentou-se.

No fim de outubro, Lisboa rendeu-se. O acordo deixava aos de dentro a vida, e ao governador os seus bens.

O que o padre não escondeu

A entrada foi uma festa. O arcebispo à frente, com a bandeira da cruz; a cruz posta na torre mais alta; o Te Deum cantado com lágrimas. O rei deu a volta às muralhas do castelo a pé.

E depois, escreve o padre, os de Colónia e os flamengos viram tanta coisa para levar que se esqueceram do juramento. Correram de um lado para o outro, arrombaram portas, esvaziaram as casas, maltrataram os habitantes e as raparigas. Mataram o velho bispo da cidade — o bispo dos cristãos que viviam em Lisboa debaixo do domínio muçulmano — cortando-lhe a garganta. O conde de Aerschot ficou à força com a égua do governador, e a égua perdeu o potro.

Os ingleses e os normandos, garante o padre, ficaram quietos nos seus postos. Só que o padre era do lado inglês, e a versão dos flamengos não a temos.

O que ficou

Depois, os cruzados dividiram-se. Uns seguiram viagem — e alguns pararam ainda em Tortosa, na Catalunha, a ajudar outro cerco. Outros ficaram por cá — o acordo prometia terras a quem quisesse ficar. Um deles, o inglês Gilberto de Hastings, foi feito bispo da nova Lisboa cristã.

Afonso Henriques ficou com a cidade que viria a ser a capital do reino. E um padre que ninguém sabe bem como se chamava deixou o relato mais completo que temos sobre o nascimento da Lisboa portuguesa — com a coragem de contar também a vergonha dos aliados, ainda que poupando os do seu lado.

Foi, como escreveu um cronista inglês da época, Henrique de Huntingdon, uma vitória de “gente pequena, que não dependia de nenhum grande chefe, a não ser Deus todo-poderoso”.

Antes · 1147

Uma frota de peregrinos armados aceita um desvio, e Lisboa passa a ser portuguesa. O preço foi o saque da cidade.

Hoje · 2026

O primeiro bispo de Lisboa depois da conquista foi um inglês, Gilberto de Hastings. Três anos depois já estava em Inglaterra a recrutar mais cruzados. É tentador ver aqui o princípio da longa relação entre Portugal e Inglaterra — é a nossa leitura.

Mesma história. Outro ponto de vista.
Nota do autor

Sete rapazes de Ipswich passaram a noite a segurar um telheiro de vime debaixo do fogo, para Lisboa ser portuguesa. Ninguém sabe os nomes deles. Esta frase é para eles.

Fontes — O que lemos de facto para escrever este capítulo. Como verificamos → Para ler mais

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