Esta é das confusas — dois irmãos, um Papa, uma rainha, uma guerra e uma lenda. Por isso, antes de começar, vamos pôr toda a gente na mesa.
Quem é quem
- Sancho II — o rei. É o menino do capítulo anterior: o herdeiro do testamento de 1214, que ficou rei com uns treze anos.
- O conde de Bolonha — o irmão mais novo do rei. Também se chama Afonso, mas para não o confundirmos com o pai (Afonso II) vamos chamar-lhe sempre o conde. Vivia em França. Mais tarde será o rei Afonso III.
- Mécia Lopes de Haro — a mulher de Sancho II, uma nobre de Castela.
- O Papa Inocêncio IV — o chefe da Igreja, que vai tirar o governo a um rei.
- Os bispos portugueses — sobretudo o arcebispo de Braga e o bispo de Coimbra, os maiores inimigos do rei.
- Martim de Freitas — o alcaide (o comandante) do castelo de Coimbra. É o herói da lenda do fim.
E a história toda numa lista, para consultares quando te perderes:
- 1223 — Sancho II fica rei, com uns 13 anos.
- 1226–1239 — conquista vilas no Alentejo e no Algarve.
- c. 1241–1243 — casa com Mécia.
- fevereiro de 1245 — o Papa manda investigar o casamento.
- 24 de julho de 1245 — o Papa entrega o governo do reino ao conde.
- 6 de setembro de 1245 — em Paris, o conde jura aos bispos o que vai fazer.
- fim de 1245 — o conde chega a Lisboa. Começa a guerra entre os irmãos.
- 1246 — a rainha Mécia desaparece de Coimbra numa noite.
- 1247 — Sancho desiste e vai viver para Toledo, em Castela.
- janeiro de 1248 — Sancho morre em Toledo. O conde passa a ser rei: Afonso III.
Agora, a história.
Primeiro, o mapa
No capítulo anterior, em 1214, o rei Afonso II fez testamento e previu o pior: «se o meu herdeiro for criança…». Foi o que aconteceu. Afonso II morreu em 1223, excomungado, e o filho, Sancho II, ficou rei com uns treze anos.
O reino ia do Minho até para lá do Tejo. Para sul — o Alentejo de baixo e o Algarve — a terra ainda era muçulmana. Quem governava, ao princípio, eram os homens do pai: Herculano chama-lhes «mais tutores que ministros».
O rei-menino que conquistou meio Alentejo
A primeira coisa a saber sobre Sancho II é que não era um rei parado.
- Em 1226, com uns dezasseis anos, foi com o exército a Elvas. Correu perigo de vida, e um cavaleiro, Afonso Mendes Sarracines, salvou-o. Elvas não ficou logo, mas uns anos depois os muçulmanos abandonaram-na, e Juromenha com ela.
- Por volta de 1232, Moura e Serpa abriram as portas aos cristãos.
- Em 1234, Aljustrel.
- Antes de 1239, Mértola, e logo a seguir Tavira e Cacela, já no Algarve.
Quase tudo com a ajuda das ordens militares — cavaleiros que eram também monges e viviam para a guerra contra os muçulmanos. Sobretudo a Ordem de Santiago, a quem o rei dava as terras conquistadas. Quando se fala de Sancho II como um rei fraco, convém lembrar isto.
Então o que correu mal?
Fora de portas, o rei ganhava. Dentro do reino, quase tudo corria mal:
- Os nobres andavam em guerras de família uns com os outros, e as queixas de violência chegavam a Roma.
- Os bispos queixavam-se de que o rei não os protegia nem aos bens da Igreja.
- Os inimigos do rei espalhavam que ele era «mentecapto» — fraco da cabeça.
E depois houve o casamento. Por volta de 1241–1243, Sancho casou com Mécia Lopes de Haro, uma nobre castelhana, viúva, filha do senhor da Biscaia. Eram parentes em quarto grau — demasiado perto para as regras da Igreja da época, a não ser com uma autorização especial do Papa. Não a tinham.
Em fevereiro de 1245, o Papa mandou investigar o casamento. E a carta do Papa diz a pedido de quem: do conde de Bolonha — o irmão do rei.
O irmão que vivia em França
Quem era, então, o conde? O irmão mais novo do rei, filho do mesmo pai. Vivia em França: em 1238 casou com Matilde, condessa de Bolonha — uma terra no norte de França —, e foi isso que lhe deu o título de conde. Em 1242 combateu ao lado do rei de França.
Não tinha reino nenhum. E o reino do irmão estava ali, cheio de queixas.
Porque é que um Papa podia mandar num rei?
Hoje parece estranho. Mas em 1245 o Papa tinha muito poder sobre os reis cristãos — e com Portugal tinha uma ligação especial. Desde Afonso Henriques que os reis portugueses tinham prometido ao Papa um tributo anual de dois marcos de ouro (nem sempre o pagaram), e o Papa, em troca, reconhecia e protegia o reino. No capítulo anterior, Afonso II chegou a pôr no testamento a rainha, os filhos e o reino «à guarda» do Papa.
Os bispos portugueses queixavam-se a Roma havia tempo. Em março de 1245, o Papa mandou os bispos do Porto e de Coimbra chamar o rei à razão. Meses depois, foi mais longe.
A bula: «não lhe tiramos nada»
Uma bula é uma carta oficial do Papa, com força de lei.
Em julho de 1245, o Papa Inocêncio IV estava em Lyon (hoje em França) para um concílio, uma grande reunião da Igreja. A 24 de julho, uma semana depois de o concílio acabar, assinou a bula Grandi non immerito. O que diz:
- que Sancho tinha tomado o governo do reino «desde a infância» — isto é, pegou no reino ainda criança;
- que o conde fica com «o cuidado e a administração geral e livre» do reino e com a defesa das igrejas — passa a ser o «curador», quem toma conta;
- que os portugueses o devem receber nas cidades, castelos e vilas, seja qual for o juramento que tenham feito ao rei;
- mas que devem guardar a pessoa e a vida do rei;
- e, no fim: «com isto não pretendemos tirar o reino ao dito rei, nem ao seu filho legítimo, se o tiver».
Traduzindo: Sancho continuava a ser rei, no nome. Mas quem mandava passava a ser o irmão. Herculano resume com uma frase seca: deixava-se a Sancho «um título vão» — e a esperança de um filho, que os conspiradores, escreve ele, estavam decididos a impedir.
O juramento de Paris
Com a bula na mão, o arcebispo de Braga e o bispo de Coimbra foram a Paris ter com o conde. A 6 de setembro de 1245, na casa do chanceler da Universidade, o conde jurou-lhes o que faria quando chegasse a Portugal. Prometeu:
- guardar os bons foros e costumes do tempo dos avós;
- pôr juízes honestos;
- castigar quem fizesse mal aos clérigos;
- devolver os bens tirados às igrejas;
- obedecer a Roma e ouvir os bispos.
Herculano chamou-lhe «quase uma abdicação da autoridade real aos pés do episcopado». Dito de forma simples: o conde ainda não mandava em nada e já tinha prometido aos bispos quase tudo o que eles queriam — guardou para si só os castelos e o dinheiro.
A guerra dos irmãos
O conde chegou a Lisboa por mar no fim de 1245 (Mattoso diz dezembro; Herculano não tinha a certeza se não foi já em 1246). Lisboa ficou do lado dele. Começou uma guerra civil — portugueses contra portugueses — que durou mais de um ano.
- Castelos tomados à força: Guimarães e o castelo de Faria, entre outros.
- Castelos comprados: a tradição conta isso de Leiria e de Lanhoso (ver «No terreno», mais abaixo).
- Do lado de Sancho: o mestre dos Templários e o bispo de Viseu, entre outros.
- Ajuda de Castela: o príncipe herdeiro de Castela — o futuro rei Afonso X, a quem lá chamam Alfonso — entrou em Portugal para socorrer Sancho. Não mudou nada de definitivo.
A noite em que a rainha desapareceu
Em 1246 aconteceu o golpe mais duro. Segundo o Livro de Linhagens — um livro sobre as famílias nobres, atribuído ao conde D. Pedro —, Raimundo Viegas de Portocarreiro, irmão do arcebispo de Braga, entrou de noite em Coimbra, onde o rei dormia, levou a rainha Mécia e foi com ela para Ourém. Quando Sancho foi atrás dela, foi recebido em Ourém com setas e pedradas.
Agora, honestidade: os historiadores não sabem bem o que foi aquilo. Herculano reparou que, em setembro de 1246, Mécia aparece em Ourém a fazer doações em liberdade, rodeada de parentes, e desconfiou de que «fosse mais fuga que rapto». José Mattoso, historiador de hoje, conta-o como rapto. Ninguém tem a resposta.
O exílio e a morte
Sem a mulher, sem as cidades e sem os bispos, Sancho foi pedir ajuda a Castela. Quando essa ajuda também falhou, desistiu: em 1247 foi viver para Toledo, em Castela. Morreu lá em janeiro de 1248, com uns trinta e oito anos — mais ou menos a idade com que o pai tinha morrido.
Tinha pedido para ser enterrado em Alcobaça, como o pai. O Papa até mandou cumprir. Não se cumpriu: ficou em Toledo, na catedral. Em 1289, um rei de Castela mudou o túmulo dele de capela. Onde está hoje, confesso que não consegui confirmar.
Com a morte do irmão, o conde deixou de ser «curador» e passou a ser rei: Afonso III. É ele quem vamos encontrar no próximo capítulo.
A lenda das chaves
E agora sim, a lenda — a que toda a gente conhece.
Diz-se que Coimbra aguentou um cerco até ao fim, fiel a Sancho. O alcaide do castelo, Martim de Freitas, tinha jurado entregá-lo só ao seu rei. Quando soube que Sancho tinha morrido, não acreditou: foi a Toledo, mandou abrir o túmulo e viu o rei morto com os próprios olhos. Então pôs as chaves do castelo no braço direito do morto — para cumprir o juramento, entregando-lhe o castelo —, tirou-as outra vez, voltou a Coimbra e só aí abriu as portas ao novo rei.
Mas atenção: isto é lenda. Ninguém a escreveu no tempo dela; aparece pela primeira vez numa crónica de 1419, mais de cento e cinquenta anos depois, e daí passou para Rui de Pina, cronista dos reis.
E a fonte mais antiga até a contradiz. Herculano reparou que o Livro de Linhagens não fala de Martim de Freitas — diz só que Coimbra ficou do lado de Sancho «porque nom foy hi o conde, ca se hi vieera assy a filhara como as outras»: porque o conde nunca lá foi; se tivesse ido, tinha-a tomado como às outras. Ou seja: segundo o Livro de Linhagens, nem houve cerco — e sem cerco não há lenda.
Herculano chamou a Martim de Freitas «o símbolo» — o símbolo de todos os que, na queda de Sancho, cumpriram o juramento. Quer dizer: pode nem ter existido, mas houve gente assim. Um historiador de hoje, Moreira, chama à história «essencialmente ficcional» — mas reconhece que encaixa num facto verdadeiro: Coimbra foi mesmo um centro de resistência.
Incapaz ou empurrado?
Fica a pergunta grande: Sancho II era mesmo incapaz, ou foi tirado do lugar por quem queria o poder?
José Mattoso fez a pergunta sem rodeios: «havia efectivamente anarquia? As bulas não exageraram? Não se tratou simplesmente de luta pelo poder?» E respondeu que houve mesmo uma crise na sociedade, agravada pela crise política. Outros historiadores mais recentes põem o peso noutro lado: num acordo entre os bispos e o irmão do rei.
Provavelmente as duas coisas são verdade. O reino estava em desordem. E havia um irmão à espera.