1.5 D. Sancho II e o Papa · 1245

O rei a quem o Papa tirou o reino sem lhe tirar a coroa

O menino do testamento de 1214 cresceu, foi rei e conquistou meio Alentejo. Depois o Papa entregou o governo ao irmão dele, que vivia em França — e jurou que não estava a tirar nada ao rei. Uma guerra civil, uma rainha que desaparece de noite e um castelo de Lanhoso vendido.

1245Lyon · Coimbra · Toledo12 min English
Martim de Freitas em Toledo, diante do túmulo aberto de D. Sancho II, imaginado por Roque Gameiro em 1917
Martim de Freitas em Toledo, diante do túmulo aberto de D. Sancho II, imaginado por Roque Gameiro em 1917
Roque Gameiro, Quadros da História de Portugal (1917) · Wikimedia Commons, domínio público

Esta é das confusas — dois irmãos, um Papa, uma rainha, uma guerra e uma lenda. Por isso, antes de começar, vamos pôr toda a gente na mesa.

Quem é quem

E a história toda numa lista, para consultares quando te perderes:

Agora, a história.

Primeiro, o mapa

No capítulo anterior, em 1214, o rei Afonso II fez testamento e previu o pior: «se o meu herdeiro for criança…». Foi o que aconteceu. Afonso II morreu em 1223, excomungado, e o filho, Sancho II, ficou rei com uns treze anos.

O reino ia do Minho até para lá do Tejo. Para sul — o Alentejo de baixo e o Algarve — a terra ainda era muçulmana. Quem governava, ao princípio, eram os homens do pai: Herculano chama-lhes «mais tutores que ministros».

O rei-menino que conquistou meio Alentejo

A primeira coisa a saber sobre Sancho II é que não era um rei parado.

Quase tudo com a ajuda das ordens militares — cavaleiros que eram também monges e viviam para a guerra contra os muçulmanos. Sobretudo a Ordem de Santiago, a quem o rei dava as terras conquistadas. Quando se fala de Sancho II como um rei fraco, convém lembrar isto.

Então o que correu mal?

Fora de portas, o rei ganhava. Dentro do reino, quase tudo corria mal:

E depois houve o casamento. Por volta de 1241–1243, Sancho casou com Mécia Lopes de Haro, uma nobre castelhana, viúva, filha do senhor da Biscaia. Eram parentes em quarto grau — demasiado perto para as regras da Igreja da época, a não ser com uma autorização especial do Papa. Não a tinham.

Em fevereiro de 1245, o Papa mandou investigar o casamento. E a carta do Papa diz a pedido de quem: do conde de Bolonha — o irmão do rei.

O irmão que vivia em França

Quem era, então, o conde? O irmão mais novo do rei, filho do mesmo pai. Vivia em França: em 1238 casou com Matilde, condessa de Bolonha — uma terra no norte de França —, e foi isso que lhe deu o título de conde. Em 1242 combateu ao lado do rei de França.

Não tinha reino nenhum. E o reino do irmão estava ali, cheio de queixas.

Porque é que um Papa podia mandar num rei?

Hoje parece estranho. Mas em 1245 o Papa tinha muito poder sobre os reis cristãos — e com Portugal tinha uma ligação especial. Desde Afonso Henriques que os reis portugueses tinham prometido ao Papa um tributo anual de dois marcos de ouro (nem sempre o pagaram), e o Papa, em troca, reconhecia e protegia o reino. No capítulo anterior, Afonso II chegou a pôr no testamento a rainha, os filhos e o reino «à guarda» do Papa.

Os bispos portugueses queixavam-se a Roma havia tempo. Em março de 1245, o Papa mandou os bispos do Porto e de Coimbra chamar o rei à razão. Meses depois, foi mais longe.

A bula: «não lhe tiramos nada»

Uma bula é uma carta oficial do Papa, com força de lei.

Em julho de 1245, o Papa Inocêncio IV estava em Lyon (hoje em França) para um concílio, uma grande reunião da Igreja. A 24 de julho, uma semana depois de o concílio acabar, assinou a bula Grandi non immerito. O que diz:

Traduzindo: Sancho continuava a ser rei, no nome. Mas quem mandava passava a ser o irmão. Herculano resume com uma frase seca: deixava-se a Sancho «um título vão» — e a esperança de um filho, que os conspiradores, escreve ele, estavam decididos a impedir.

O juramento de Paris

Com a bula na mão, o arcebispo de Braga e o bispo de Coimbra foram a Paris ter com o conde. A 6 de setembro de 1245, na casa do chanceler da Universidade, o conde jurou-lhes o que faria quando chegasse a Portugal. Prometeu:

Herculano chamou-lhe «quase uma abdicação da autoridade real aos pés do episcopado». Dito de forma simples: o conde ainda não mandava em nada e já tinha prometido aos bispos quase tudo o que eles queriam — guardou para si só os castelos e o dinheiro.

A guerra dos irmãos

O conde chegou a Lisboa por mar no fim de 1245 (Mattoso diz dezembro; Herculano não tinha a certeza se não foi já em 1246). Lisboa ficou do lado dele. Começou uma guerra civil — portugueses contra portugueses — que durou mais de um ano.

A noite em que a rainha desapareceu

Em 1246 aconteceu o golpe mais duro. Segundo o Livro de Linhagens — um livro sobre as famílias nobres, atribuído ao conde D. Pedro —, Raimundo Viegas de Portocarreiro, irmão do arcebispo de Braga, entrou de noite em Coimbra, onde o rei dormia, levou a rainha Mécia e foi com ela para Ourém. Quando Sancho foi atrás dela, foi recebido em Ourém com setas e pedradas.

Agora, honestidade: os historiadores não sabem bem o que foi aquilo. Herculano reparou que, em setembro de 1246, Mécia aparece em Ourém a fazer doações em liberdade, rodeada de parentes, e desconfiou de que «fosse mais fuga que rapto». José Mattoso, historiador de hoje, conta-o como rapto. Ninguém tem a resposta.

O exílio e a morte

Sem a mulher, sem as cidades e sem os bispos, Sancho foi pedir ajuda a Castela. Quando essa ajuda também falhou, desistiu: em 1247 foi viver para Toledo, em Castela. Morreu lá em janeiro de 1248, com uns trinta e oito anos — mais ou menos a idade com que o pai tinha morrido.

Tinha pedido para ser enterrado em Alcobaça, como o pai. O Papa até mandou cumprir. Não se cumpriu: ficou em Toledo, na catedral. Em 1289, um rei de Castela mudou o túmulo dele de capela. Onde está hoje, confesso que não consegui confirmar.

Com a morte do irmão, o conde deixou de ser «curador» e passou a ser rei: Afonso III. É ele quem vamos encontrar no próximo capítulo.

A lenda das chaves

E agora sim, a lenda — a que toda a gente conhece.

Diz-se que Coimbra aguentou um cerco até ao fim, fiel a Sancho. O alcaide do castelo, Martim de Freitas, tinha jurado entregá-lo só ao seu rei. Quando soube que Sancho tinha morrido, não acreditou: foi a Toledo, mandou abrir o túmulo e viu o rei morto com os próprios olhos. Então pôs as chaves do castelo no braço direito do morto — para cumprir o juramento, entregando-lhe o castelo —, tirou-as outra vez, voltou a Coimbra e só aí abriu as portas ao novo rei.

Mas atenção: isto é lenda. Ninguém a escreveu no tempo dela; aparece pela primeira vez numa crónica de 1419, mais de cento e cinquenta anos depois, e daí passou para Rui de Pina, cronista dos reis.

E a fonte mais antiga até a contradiz. Herculano reparou que o Livro de Linhagens não fala de Martim de Freitas — diz só que Coimbra ficou do lado de Sancho «porque nom foy hi o conde, ca se hi vieera assy a filhara como as outras»: porque o conde nunca lá foi; se tivesse ido, tinha-a tomado como às outras. Ou seja: segundo o Livro de Linhagens, nem houve cerco — e sem cerco não há lenda.

Herculano chamou a Martim de Freitas «o símbolo» — o símbolo de todos os que, na queda de Sancho, cumpriram o juramento. Quer dizer: pode nem ter existido, mas houve gente assim. Um historiador de hoje, Moreira, chama à história «essencialmente ficcional» — mas reconhece que encaixa num facto verdadeiro: Coimbra foi mesmo um centro de resistência.

Incapaz ou empurrado?

Fica a pergunta grande: Sancho II era mesmo incapaz, ou foi tirado do lugar por quem queria o poder?

José Mattoso fez a pergunta sem rodeios: «havia efectivamente anarquia? As bulas não exageraram? Não se tratou simplesmente de luta pelo poder?» E respondeu que houve mesmo uma crise na sociedade, agravada pela crise política. Outros historiadores mais recentes põem o peso noutro lado: num acordo entre os bispos e o irmão do rei.

Provavelmente as duas coisas são verdade. O reino estava em desordem. E havia um irmão à espera.

Antes · 1245

Um Papa entrega o governo de Portugal ao irmão do rei e jura, no mesmo documento, que não está a tirar o reino a ninguém.

Hoje · 2026

A bula de 1245 não ficou numa gaveta: entrou nas coleções oficiais do direito da Igreja e foi estudada durante séculos. Os historiadores chamam a este problema o do «rex inutilis» — o rei inútil: o que se faz a um rei que não governa, sem deixar de ser rei.

Mesma história. Outro ponto de vista.
Nota do autor

Conquistou meio Alentejo e ficou para a história como incapaz. Os vencedores escrevem a história — e às vezes também a bula.

Fontes — O que lemos de facto para escrever este capítulo. Como verificamos → Para ler mais

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