1.4 Testamento de Afonso II · 1214

O rei que fez testamento de perfeita saúde — e em português

Um rei com menos de trinta anos, a meio de uma guerra contra as próprias irmãs, dita o que acontece quando morrer. Treze cópias, um papa, uma filha que podia herdar o reino — e a língua que se falava na rua, escrita por um rei pela primeira vez, que se saiba.

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O testamento de D. Afonso II, de 1214, escrito em português num pergaminho
O testamento de D. Afonso II, de 1214, escrito em português num pergaminho
Testamento de D. Afonso II (1214), exemplar da Torre do Tombo · Wikimedia Commons, domínio público

Coimbra, junho de 1214. Um rei de vinte e oito ou vinte e nove anos manda escrever o que deve acontecer quando morrer. Não está doente — ele próprio o diz na primeira linha. E não o escreve em latim, como se escrevia tudo o que era importante. Escreve-o na língua que se falava.

É o mais antigo documento de um rei em português que chegou até nós. Mas antes de o lermos, é preciso saber quem era este rei, e porque é que um homem novo e com saúde estava a pensar na morte.

Primeiro, o mapa

No capítulo anterior, em 1147, Afonso Henriques — o primeiro rei — tomou Lisboa com a ajuda dos cruzados. Morreu em 1185. Sucedeu-lhe o filho, Sancho I.

Portugal já ia do Minho até para lá do Tejo — o próprio testamento fala do bispo de Évora e dos freires de Palmela. Coimbra, Santarém e Lisboa eram as grandes cidades. Mais a sul, a começar em Alcácer do Sal, a terra ainda era muçulmana. E à volta havia vizinhos maiores: o reino de Leão, a norte e a leste, e o de Castela.

Em março de 1211, Sancho I morreu, com 57 anos, depois de uma longa doença. Deixou o trono ao filho mais velho, Afonso. É este o Afonso II.

Quem era Afonso II

Neto de Afonso Henriques, filho de Sancho I. Em criança, conta o historiador Alexandre Herculano, tinha uma saúde tão fraca que o pai duvidava que chegasse a sobreviver-lhe. Já adolescente teve uma doença tão violenta que a cura foi atribuída a milagre.

Ficou conhecido como «o Gordo». Agora, honestidade: Herculano escreve que a obesidade é coisa «que a tradição atribuiu» ao rei, e que ignora com que fundamento.

Casou com Urraca, filha do rei de Castela. Em 1214 já tinham filhos pequenos, e o mais velho, Sancho, era o herdeiro.

Uma guerra por causa de um testamento

E aqui está o ponto: quando Afonso II fez o seu testamento, estava em guerra por causa do testamento do pai.

Sancho I, ao morrer, deixou ao filho o reino. Mas deixou às filhas terras e castelos importantes:

Montemor e Alenquer eram, depois de Coimbra, Santarém e Lisboa, talvez as terras mais importantes entre o Mondego e o Tejo.

Afonso II disse que não. Para ele, as terras do rei não se dividiam: passavam inteiras para quem reinava. Exigiu os castelos às irmãs três vezes, com oito dias de intervalo. Elas aproveitaram esse tempo para fortificar Montemor e Alenquer, e Teresa, Sancha e outra irmã, Branca, fecharam-se no castelo de Montemor.

O rei ainda propôs um meio-termo: o castelo ficava com um nobre de confiança das duas partes, e as rendas iam todas para Teresa. Recusaram. Os partidários das infantas chamaram o rei de Leão, Afonso IX. E não era um estranho: tinha sido casado com Teresa, e veio com o filho dos dois. Entrou em Portugal, tomou castelos no norte e queimou boa parte de Trás-os-Montes. As tropas de Afonso II perderam uma batalha em Valdevez, no Minho.

Só a intervenção do Papa trocou as espadas por advogados. Herculano resume: uma luta dentro de casa «que durara por cinco anos». E Mafalda, pelo menos, perdeu Bouças, que o pai lhe tinha deixado.

O testamento de 1214 foi escrito a meio disto tudo. É tentador ler nele a lição: o pai deixou um testamento que partiu o reino; o filho escreve logo na primeira ordem que o seu herdeiro fica com o reino «entegramente e en paz» — inteiro e em paz. Isto é a minha leitura, não está escrito em lado nenhum. Mas a palavra está lá.

O que diz o testamento

Começa assim:

«En’o nome de Deus. Eu rei don Afonso pela gracia de Deus rei de Portugal, seendo sano e saluo, temẽte o dia de mia morte…»

Em português de hoje: «Em nome de Deus. Eu, rei D. Afonso, pela graça de Deus rei de Portugal, estando são e salvo, temendo o dia da minha morte…»

E depois, ponto por ponto:

E manda ainda que, se pagar estas missas em vida, rezem por ele «come por uiuo» — como se reza por um vivo — enquanto viver, e só depois da morte façam as missas de aniversário. Pagava adiantado, mas não queria perder o serviço.

Treze cópias

Para ter a certeza de que tudo se cumpria — é o que o próprio texto diz —, o rei mandou fazer treze cartas iguais. E diz também para onde foi cada uma:

  1. o arcebispo de Braga
  2. o arcebispo de Santiago
  3. o arcebispo de Toledo
  4. o bispo do Porto
  5. o bispo de Lisboa
  6. o bispo de Coimbra
  7. o bispo de Évora
  8. o bispo de Viseu
  9. o mestre do Templo
  10. o prior do Hospital
  11. o prior de Santa Cruz de Coimbra
  12. o abade de Alcobaça
  13. e a última, guardada no tesouro do próprio rei.

Termina com o lugar e a data: «feitas en Coinbria IIII dias por andar de Junio, Era M CC LII». Quatro dias por andar de junho é 27 de junho. E a Era de 1252 é a «Era hispânica», a contagem da época, que ia 38 anos à frente da nossa: 1252 menos 38 dá 1214.

Das treze, sobreviveram duas: a que foi para Braga, que hoje está na Torre do Tombo, em Lisboa, e a de Toledo, no arquivo da catedral.

Mas é mesmo o primeiro?

Costuma dizer-se que este é «o primeiro texto escrito em português». Não é bem assim.

Há textos mais antigos que os especialistas discutem:

O que se pode dizer com segurança é isto: o testamento de 1214 é o mais antigo documento de um rei escrito em português que chegou até nós. A língua, essa, era a mesma dos dois lados do rio Minho: os linguistas chamam-lhe galego-português.

E há uma ironia. O padre Avelino de Jesus da Costa, que estudou estes documentos, notou que o testamento parecia isolado: no tempo dele, o documento em português seguinte que se conhecia era de 1255 (soube-se depois que essa data estava errada, e entretanto apareceram outros). E quando o próprio Afonso II fez um segundo testamento, em novembro de 1221, voltou a escrevê-lo em latim. O latim só deixou de ser a língua dos documentos oficiais do rei no reinado de D. Dinis, entre 1279 e 1325.

O que aconteceu depois

O rei de perfeita saúde viveu quase mais nove anos, e pouco descansou: primeiro as irmãs, depois os nobres e a Igreja.

Quis saber o que era de quem: obrigou senhores e mosteiros a mostrar os papéis das suas terras e privilégios, e em 1220 mandou inquiridores pelas terras do norte perguntar quem tinha o quê. Não fez amigos.

Também não era de ir à guerra em pessoa. Em 1212 mandou tropas para a grande batalha de Las Navas de Tolosa, mas não foi. Em 1217, quando cruzados e portugueses cercaram e tomaram Alcácer do Sal, ele andava por Alcobaça, Coimbra e Guimarães. Herculano faz a pergunta que qualquer leitor faria: «Mas Afonso II, onde estava?»

Zangou-se com o arcebispo de Braga, mandou destruir-lhe os bens, e o arcebispo excomungou-o. Afonso II morreu a 25 de março de 1223, com 37 anos, ainda excomungado. O arcebispo recusou-lhe sepultura cristã até os tutores do novo rei pagarem.

O novo rei era o filho Sancho — o mesmo do testamento, que passou a ser Sancho II. Tinha, segundo Herculano, apenas uns treze anos. Exatamente o caso que o pai tinha previsto: um herdeiro sem idade para reinar.

Antes · 1214

Um rei de boa saúde escreve o que fazer quando morrer — e escreve-o na língua que se falava, não em latim.

Hoje · 2026

Leia-se a primeira frase em voz alta: «seendo sano e saluo». Oitocentos anos depois, ainda dizemos que alguém chegou «são e salvo».

Mesma história. Outro ponto de vista.
Nota do autor

Andou cinco anos em guerra com as irmãs por causa de uma herança. No testamento dele, deixou partes iguais a filhos e filhas. Às vezes aprende-se.

Fontes — O que lemos de facto para escrever este capítulo. Como verificamos → Para ler mais

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