Coimbra, junho de 1214. Um rei de vinte e oito ou vinte e nove anos manda escrever o que deve acontecer quando morrer. Não está doente — ele próprio o diz na primeira linha. E não o escreve em latim, como se escrevia tudo o que era importante. Escreve-o na língua que se falava.
É o mais antigo documento de um rei em português que chegou até nós. Mas antes de o lermos, é preciso saber quem era este rei, e porque é que um homem novo e com saúde estava a pensar na morte.
Primeiro, o mapa
No capítulo anterior, em 1147, Afonso Henriques — o primeiro rei — tomou Lisboa com a ajuda dos cruzados. Morreu em 1185. Sucedeu-lhe o filho, Sancho I.
Portugal já ia do Minho até para lá do Tejo — o próprio testamento fala do bispo de Évora e dos freires de Palmela. Coimbra, Santarém e Lisboa eram as grandes cidades. Mais a sul, a começar em Alcácer do Sal, a terra ainda era muçulmana. E à volta havia vizinhos maiores: o reino de Leão, a norte e a leste, e o de Castela.
Em março de 1211, Sancho I morreu, com 57 anos, depois de uma longa doença. Deixou o trono ao filho mais velho, Afonso. É este o Afonso II.
Quem era Afonso II
Neto de Afonso Henriques, filho de Sancho I. Em criança, conta o historiador Alexandre Herculano, tinha uma saúde tão fraca que o pai duvidava que chegasse a sobreviver-lhe. Já adolescente teve uma doença tão violenta que a cura foi atribuída a milagre.
Ficou conhecido como «o Gordo». Agora, honestidade: Herculano escreve que a obesidade é coisa «que a tradição atribuiu» ao rei, e que ignora com que fundamento.
Casou com Urraca, filha do rei de Castela. Em 1214 já tinham filhos pequenos, e o mais velho, Sancho, era o herdeiro.
Uma guerra por causa de um testamento
E aqui está o ponto: quando Afonso II fez o seu testamento, estava em guerra por causa do testamento do pai.
Sancho I, ao morrer, deixou ao filho o reino. Mas deixou às filhas terras e castelos importantes:
- a Teresa (não confundir com a D. Teresa do capítulo 1.1, bisavó dele), Montemor-o-Velho e Esgueira;
- a Sancha, Alenquer;
- a Mafalda, os mosteiros de Arouca e Bouças e terras em Seia.
Montemor e Alenquer eram, depois de Coimbra, Santarém e Lisboa, talvez as terras mais importantes entre o Mondego e o Tejo.
Afonso II disse que não. Para ele, as terras do rei não se dividiam: passavam inteiras para quem reinava. Exigiu os castelos às irmãs três vezes, com oito dias de intervalo. Elas aproveitaram esse tempo para fortificar Montemor e Alenquer, e Teresa, Sancha e outra irmã, Branca, fecharam-se no castelo de Montemor.
O rei ainda propôs um meio-termo: o castelo ficava com um nobre de confiança das duas partes, e as rendas iam todas para Teresa. Recusaram. Os partidários das infantas chamaram o rei de Leão, Afonso IX. E não era um estranho: tinha sido casado com Teresa, e veio com o filho dos dois. Entrou em Portugal, tomou castelos no norte e queimou boa parte de Trás-os-Montes. As tropas de Afonso II perderam uma batalha em Valdevez, no Minho.
Só a intervenção do Papa trocou as espadas por advogados. Herculano resume: uma luta dentro de casa «que durara por cinco anos». E Mafalda, pelo menos, perdeu Bouças, que o pai lhe tinha deixado.
O testamento de 1214 foi escrito a meio disto tudo. É tentador ler nele a lição: o pai deixou um testamento que partiu o reino; o filho escreve logo na primeira ordem que o seu herdeiro fica com o reino «entegramente e en paz» — inteiro e em paz. Isto é a minha leitura, não está escrito em lado nenhum. Mas a palavra está lá.
O que diz o testamento
Começa assim:
«En’o nome de Deus. Eu rei don Afonso pela gracia de Deus rei de Portugal, seendo sano e saluo, temẽte o dia de mia morte…»
Em português de hoje: «Em nome de Deus. Eu, rei D. Afonso, pela graça de Deus rei de Portugal, estando são e salvo, temendo o dia da minha morte…»
E depois, ponto por ponto:
- Quem herda: o filho Sancho, que teve da rainha Urraca. Se Sancho morrer sem filhos, herda o filho seguinte. E se não houver nenhum filho rapaz, herda a filha mais velha. Em 1214, uma filha podia ficar com o reino.
- Se o herdeiro for criança: fica com a mãe, e o reino fica nas mãos da rainha e dos vassalos até ele ter idade.
- O protetor: o rei pede ao Papa, «como pai e senhor», e — palavras dele — «beijo a terra diante dos seus pés», que tome à sua guarda a rainha, os filhos e o reino.
- A rainha: fica com metade dos bens móveis do rei — dinheiro, ouro, objetos; as terras não —, tirando o que já estava separado para a alma.
- A outra metade: primeiro pagam-se as dívidas. Do que sobrar, dois terços vão para os filhos e filhas, «igualmente» — rapazes e raparigas em partes iguais. O outro terço é para a alma.
- O corpo: morra onde morrer, dentro ou fora do reino, levem-no a Alcobaça, à custa dele.
- Missas: é desse terço que sai o dinheiro, em morabitinos, moedas de ouro. Três mil vão para o Papa, de presente. E, para lhe rezarem pela alma todos os anos no dia da morte: dois mil a Alcobaça, dois mil a Santa Maria de Rocamador, em França, dois mil e trezentos a Santiago de Compostela, e mais a Idanha, a São Vicente de Lisboa, aos cónegos de Tui. E pede uma missa por dia «por sempre».
- Quem cumpre o testamento: os arcebispos de Braga e de Santiago e cinco bispos. Se discordarem, vale o que decidir a maioria.
E manda ainda que, se pagar estas missas em vida, rezem por ele «come por uiuo» — como se reza por um vivo — enquanto viver, e só depois da morte façam as missas de aniversário. Pagava adiantado, mas não queria perder o serviço.
Treze cópias
Para ter a certeza de que tudo se cumpria — é o que o próprio texto diz —, o rei mandou fazer treze cartas iguais. E diz também para onde foi cada uma:
- o arcebispo de Braga
- o arcebispo de Santiago
- o arcebispo de Toledo
- o bispo do Porto
- o bispo de Lisboa
- o bispo de Coimbra
- o bispo de Évora
- o bispo de Viseu
- o mestre do Templo
- o prior do Hospital
- o prior de Santa Cruz de Coimbra
- o abade de Alcobaça
- e a última, guardada no tesouro do próprio rei.
Termina com o lugar e a data: «feitas en Coinbria IIII dias por andar de Junio, Era M CC LII». Quatro dias por andar de junho é 27 de junho. E a Era de 1252 é a «Era hispânica», a contagem da época, que ia 38 anos à frente da nossa: 1252 menos 38 dá 1214.
Das treze, sobreviveram duas: a que foi para Braga, que hoje está na Torre do Tombo, em Lisboa, e a de Toledo, no arquivo da catedral.
Mas é mesmo o primeiro?
Costuma dizer-se que este é «o primeiro texto escrito em português». Não é bem assim.
Há textos mais antigos que os especialistas discutem:
- A Notícia de Fiadores (1175): uma lista de onze nomes com quantias de dinheiro. Tem data, mas é tão curta e tão cheia de latim que há quem diga que não conta.
- O Pacto entre Gomes Pais e Ramiro Pais (antes de 1175): um acordo entre dois irmãos. Gomes promete que o mordomo dele não vai apertar com as terras e a gente do irmão; em troca, Ramiro ajuda-o «contra quem for, salvo o rei e os seus filhos». Não tem data; sabe-se que é anterior porque o pergaminho foi reaproveitado do outro lado para uma venda de abril de 1175.
- A Notícia de Torto (por volta de 1214): a queixa de um homem, Lourenço Fernandes da Cunha, contra os filhos de um tal Gonçalo Ramires, que lhe fizeram mal — entre outras coisas, levaram-lhe durante três anos o fruto de um casal «cun torto», à má-fé.
O que se pode dizer com segurança é isto: o testamento de 1214 é o mais antigo documento de um rei escrito em português que chegou até nós. A língua, essa, era a mesma dos dois lados do rio Minho: os linguistas chamam-lhe galego-português.
E há uma ironia. O padre Avelino de Jesus da Costa, que estudou estes documentos, notou que o testamento parecia isolado: no tempo dele, o documento em português seguinte que se conhecia era de 1255 (soube-se depois que essa data estava errada, e entretanto apareceram outros). E quando o próprio Afonso II fez um segundo testamento, em novembro de 1221, voltou a escrevê-lo em latim. O latim só deixou de ser a língua dos documentos oficiais do rei no reinado de D. Dinis, entre 1279 e 1325.
O que aconteceu depois
O rei de perfeita saúde viveu quase mais nove anos, e pouco descansou: primeiro as irmãs, depois os nobres e a Igreja.
Quis saber o que era de quem: obrigou senhores e mosteiros a mostrar os papéis das suas terras e privilégios, e em 1220 mandou inquiridores pelas terras do norte perguntar quem tinha o quê. Não fez amigos.
Também não era de ir à guerra em pessoa. Em 1212 mandou tropas para a grande batalha de Las Navas de Tolosa, mas não foi. Em 1217, quando cruzados e portugueses cercaram e tomaram Alcácer do Sal, ele andava por Alcobaça, Coimbra e Guimarães. Herculano faz a pergunta que qualquer leitor faria: «Mas Afonso II, onde estava?»
Zangou-se com o arcebispo de Braga, mandou destruir-lhe os bens, e o arcebispo excomungou-o. Afonso II morreu a 25 de março de 1223, com 37 anos, ainda excomungado. O arcebispo recusou-lhe sepultura cristã até os tutores do novo rei pagarem.
O novo rei era o filho Sancho — o mesmo do testamento, que passou a ser Sancho II. Tinha, segundo Herculano, apenas uns treze anos. Exatamente o caso que o pai tinha previsto: um herdeiro sem idade para reinar.