Senta-te, que esta é sobre uma batalha e sobre uma lenda. Primeiro a lenda, porque é a que toda a gente conhece.
A lenda
Verão de 1139. Afonso Henriques, ainda conde, está no sul com os seus homens, frente a um exército muçulmano muito maior. Na véspera da batalha, ao fim da tarde, aparece-lhe um ermitão que lhe diz para sair sozinho quando ouvir tocar a campainha da ermida. Afonso reza e adormece. Uma hora antes de amanhecer, toca a campainha. Ele sai, o céu abre-se, e surge-lhe Cristo crucificado numa cruz enorme, a prometer-lhe a vitória e um reino.
Duarte Galvão, o cronista do rei D. Manuel, que contou esta versão em 1505, diz que Afonso até protestou: “Senhor, aos hereges, aos hereges faz mister apareceres, que eu sem nenhuma dúvida creio.” Ou seja: apareça aos que não acreditam, que eu já acredito.
No dia seguinte, antes de entrar no combate, os soldados aclamam-no rei. Afonso vence cinco reis mouros. E põe cinco escudos na bandeira.
Durante quatrocentos anos, os portugueses aprenderam isto como história verdadeira. Estava nos livros, nos azulejos, nos quadros das igrejas.
Agora vamos ver o que se sabe de facto.
O que dizem as fontes da época
A data. A batalha foi a 25 de julho de 1139, dia de São Tiago.
O tipo de batalha. Afonso terá descido muito para sul, numa das incursões em terra muçulmana que os cristãos faziam todos os anos para pilhar e voltar. O historiador Alexandre Herculano, de quem vamos falar mais à frente, encontrou um documento em que o próprio Afonso chama “fossado” a esta campanha — o nome que se dava a essas razias.
O adversário. Os cronistas cristãos chamam ao chefe muçulmano Esmar. Herculano achava que era uma deformação de Omar ou de Ismael.
Os cinco reis. Aqui vem a surpresa: os cinco reis não foram inventados mais tarde. Já aparecem num texto do século XII, uma vida de São Teotónio — o prior do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, homem de confiança de Afonso — escrita por alguém que o conheceu. Diz que Afonso derrotou no campo de Ourique “cinco reis pagãos”, com ajuda de Deus e a proteção de São Tiago. Mas Herculano explica o truque: quando um cronista cristão chamava “rei” a um muçulmano, queria dizer chefe — um governador, um alcaide. Eram cinco chefes, promovidos a reis pela pena de quem escrevia.
As mulheres. Outra crónica do mesmo século regista que, do lado muçulmano, combateram mulheres “à maneira das amazonas” — percebeu-se pelas que foram encontradas mortas no campo. Herculano diz que era costume dos almorávidas.
O título de rei. Entre julho de 1139 e junho de 1140 não sobra nenhum papel passado pelo próprio Afonso. Sobra só o papel de um particular, de 1 de outubro de 1139, que ainda lhe chama infante — príncipe, ainda não rei. Foi no ano seguinte que começou a assinar como rei. Ninguém lhe deu o título — já o vimos no capítulo 1.1. Usou-o até o mundo se habituar.
O sítio. Ninguém sabe ao certo onde foi. A tradição diz Ourique, no Baixo Alentejo, terra que mais tarde foi da Ordem de Santiago. O arqueólogo Jorge de Alarcão lembra que os freires de Santiago tinham todo o interesse em ter lá uma batalha travada no dia de São Tiago, o seu padroeiro. E acha mais provável um Campo de Ourique perto de Leiria — sem jurar que foi lá.
Em resumo: ajuda de Deus e de São Tiago, sim — dizia-se isso de qualquer vitória. Cristo no céu, nenhuma linha.
Como a lenda cresceu
A lenda foi crescendo às camadas, como uma cebola:
- Por volta de 1340, uma crónica do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra já conta que, depois de Ourique, Afonso passou a chamar-se rei e tomou por armas os cinco escudos. Cristo ainda não está lá.
- Em 1419, numa crónica do reino, aparece pela primeira vez a aparição de Cristo — “a mais antiga narração até hoje conhecida da lenda”, nas palavras do filólogo Lindley Cintra. Quase trezentos anos depois da batalha. A historiadora Ana Isabel Buescu põe a origem da lenda precisamente nesse século XV.
- Com o tempo, os números também cresceram. Houve quem escrevesse que se venceram quatrocentos mil sarracenos.
- Em 1597, nos Diálogos de Vária História de Pedro de Mariz, sai impresso um documento — copiado, segundo se afirmava, do cartório do mosteiro de Alcobaça — que se apresentava como o juramento do próprio Afonso Henriques, a contar o milagre.
O juramento que alguém forjou
O juramento era falso. Mas vale a pena ver o que dizia, porque é um teatro.
Estava datado de Coimbra, 29 de outubro de 1152, escrito por um escrivão, com testemunhas — e uma delas era o próprio São Teotónio. Tinha tudo: o ermitão que vivia havia sessenta e seis anos entre os infiéis, a campainha, Afonso a largar o escudo e a espada e a tirar a roupa e o calçado para se deitar de bruços no chão, uma cruz com quase dez côvados de altura.
E terminava com uma profecia: Deus olharia pela descendência de Afonso até à décima sexta geração; nessa geração a sucessão diminuiria — mas, mesmo assim, Deus voltaria a pôr nela os olhos.
Repara na data em que o documento apareceu. Desde 1580, o rei de Portugal era o rei de Espanha. É difícil não ler aqui um recado: uma profecia destas era o que queria ouvir quem sonhava com um rei português. (Mais tarde, depois de 1640, houve quem dissesse que a tal 16.ª geração era D. João IV.)
Herculano olhou para o documento e escreveu que estava “tão mal forjado, que o menos instruído aluno de diplomática o rejeitará como falso ao primeiro aspeto”. E acrescentou que qualquer pessoa o podia ir ver ao Arquivo Nacional, onde estava guardado. Antes dele, a Academia já o tinha desmontado.
Agora, honestidade: a lenda não serviu só a um lado. Quando Filipe II de Portugal — o III de Espanha — entrou em Lisboa em 1619, um dos arcos triunfais que o receberam tinha o milagre de Ourique como peça central. Servia tanto a quem sonhava com um rei português como ao rei espanhol que queria parecer herdeiro de Afonso Henriques.
O homem que disse que não
Herculano não foi o primeiro a duvidar. No século XVIII, o padre Luís António Verney e o arquiteto Luís Nunes Tinoco já tinham posto o milagre em causa. Mas foi Herculano quem pagou o preço.
Em 1846 publicou o primeiro volume da sua História de Portugal. Despachou o milagre numa linha — “fábulas não menos absurdas que brilhantes” — e desmontou o juramento nas notas do fim do livro.
Bastou. Choveram críticas nos jornais e sermões nas igrejas. A 30 de junho de 1850, Herculano respondeu com uma carta pública ao cardeal-patriarca de Lisboa, D. Guilherme Henriques de Carvalho, chamada Eu e o Clero. Seguiu-se uma guerra de panfletos que durou anos.
Ele não recuou. Ir aos papéis, ver o que lá está, dizer o que é documento e o que é lenda — é mais ou menos o que este site tenta fazer. Com menos panfletos.
O que ficou
Ourique foi uma vitória a sério sobre cinco chefes muçulmanos — «reis», chama-lhes a fonte da época —, de um conde que no ano seguinte se pôs a assinar como rei. O resto — o ermitão, a campainha, o Cristo na cruz, o juramento — foi acrescentado por quem precisava de um começo mais grandioso.
Contamos a lenda na mesma, porque as lendas também dizem quem somos. Esta diz que, durante séculos, um país pequeno precisou de acreditar que tinha sido escolhido.
Herculano deixou o remate escrito na advertência do livro: “se não tivermos o generoso ânimo de dizermos a nós próprios a verdade, os estranhos no-la virão dizer com mais cruel franqueza.”