1.2 Batalha de Ourique · 1139

O milagre que alguém inventou trezentos anos depois

Uma batalha de que quase nada se sabe, um Cristo que só aparece no céu no século XV, um juramento falso «copiado» de um mosteiro e um historiador que comprou uma guerra com o clero por dizer a verdade.

1139Ourique · Alentejo (?)9 min English
Afonso Henriques ajoelhado perante Cristo crucificado — o milagre de Ourique pintado por Frei Manuel dos Reis
Afonso Henriques ajoelhado perante Cristo crucificado — o milagre de Ourique pintado por Frei Manuel dos Reis
Frei Manuel dos Reis, D. Afonso Henriques — Batalha de Ourique, Museu Alberto Sampaio (Guimarães) · Wikimedia Commons, domínio público

Senta-te, que esta é sobre uma batalha e sobre uma lenda. Primeiro a lenda, porque é a que toda a gente conhece.

A lenda

Verão de 1139. Afonso Henriques, ainda conde, está no sul com os seus homens, frente a um exército muçulmano muito maior. Na véspera da batalha, ao fim da tarde, aparece-lhe um ermitão que lhe diz para sair sozinho quando ouvir tocar a campainha da ermida. Afonso reza e adormece. Uma hora antes de amanhecer, toca a campainha. Ele sai, o céu abre-se, e surge-lhe Cristo crucificado numa cruz enorme, a prometer-lhe a vitória e um reino.

Duarte Galvão, o cronista do rei D. Manuel, que contou esta versão em 1505, diz que Afonso até protestou: “Senhor, aos hereges, aos hereges faz mister apareceres, que eu sem nenhuma dúvida creio.” Ou seja: apareça aos que não acreditam, que eu já acredito.

No dia seguinte, antes de entrar no combate, os soldados aclamam-no rei. Afonso vence cinco reis mouros. E põe cinco escudos na bandeira.

Durante quatrocentos anos, os portugueses aprenderam isto como história verdadeira. Estava nos livros, nos azulejos, nos quadros das igrejas.

Agora vamos ver o que se sabe de facto.

O que dizem as fontes da época

A data. A batalha foi a 25 de julho de 1139, dia de São Tiago.

O tipo de batalha. Afonso terá descido muito para sul, numa das incursões em terra muçulmana que os cristãos faziam todos os anos para pilhar e voltar. O historiador Alexandre Herculano, de quem vamos falar mais à frente, encontrou um documento em que o próprio Afonso chama “fossado” a esta campanha — o nome que se dava a essas razias.

O adversário. Os cronistas cristãos chamam ao chefe muçulmano Esmar. Herculano achava que era uma deformação de Omar ou de Ismael.

Os cinco reis. Aqui vem a surpresa: os cinco reis não foram inventados mais tarde. Já aparecem num texto do século XII, uma vida de São Teotónio — o prior do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, homem de confiança de Afonso — escrita por alguém que o conheceu. Diz que Afonso derrotou no campo de Ourique “cinco reis pagãos”, com ajuda de Deus e a proteção de São Tiago. Mas Herculano explica o truque: quando um cronista cristão chamava “rei” a um muçulmano, queria dizer chefe — um governador, um alcaide. Eram cinco chefes, promovidos a reis pela pena de quem escrevia.

As mulheres. Outra crónica do mesmo século regista que, do lado muçulmano, combateram mulheres “à maneira das amazonas” — percebeu-se pelas que foram encontradas mortas no campo. Herculano diz que era costume dos almorávidas.

O título de rei. Entre julho de 1139 e junho de 1140 não sobra nenhum papel passado pelo próprio Afonso. Sobra só o papel de um particular, de 1 de outubro de 1139, que ainda lhe chama infante — príncipe, ainda não rei. Foi no ano seguinte que começou a assinar como rei. Ninguém lhe deu o título — já o vimos no capítulo 1.1. Usou-o até o mundo se habituar.

O sítio. Ninguém sabe ao certo onde foi. A tradição diz Ourique, no Baixo Alentejo, terra que mais tarde foi da Ordem de Santiago. O arqueólogo Jorge de Alarcão lembra que os freires de Santiago tinham todo o interesse em ter lá uma batalha travada no dia de São Tiago, o seu padroeiro. E acha mais provável um Campo de Ourique perto de Leiria — sem jurar que foi lá.

Em resumo: ajuda de Deus e de São Tiago, sim — dizia-se isso de qualquer vitória. Cristo no céu, nenhuma linha.

Como a lenda cresceu

A lenda foi crescendo às camadas, como uma cebola:

O juramento que alguém forjou

O juramento era falso. Mas vale a pena ver o que dizia, porque é um teatro.

Estava datado de Coimbra, 29 de outubro de 1152, escrito por um escrivão, com testemunhas — e uma delas era o próprio São Teotónio. Tinha tudo: o ermitão que vivia havia sessenta e seis anos entre os infiéis, a campainha, Afonso a largar o escudo e a espada e a tirar a roupa e o calçado para se deitar de bruços no chão, uma cruz com quase dez côvados de altura.

E terminava com uma profecia: Deus olharia pela descendência de Afonso até à décima sexta geração; nessa geração a sucessão diminuiria — mas, mesmo assim, Deus voltaria a pôr nela os olhos.

Repara na data em que o documento apareceu. Desde 1580, o rei de Portugal era o rei de Espanha. É difícil não ler aqui um recado: uma profecia destas era o que queria ouvir quem sonhava com um rei português. (Mais tarde, depois de 1640, houve quem dissesse que a tal 16.ª geração era D. João IV.)

Herculano olhou para o documento e escreveu que estava “tão mal forjado, que o menos instruído aluno de diplomática o rejeitará como falso ao primeiro aspeto”. E acrescentou que qualquer pessoa o podia ir ver ao Arquivo Nacional, onde estava guardado. Antes dele, a Academia já o tinha desmontado.

Agora, honestidade: a lenda não serviu só a um lado. Quando Filipe II de Portugal — o III de Espanha — entrou em Lisboa em 1619, um dos arcos triunfais que o receberam tinha o milagre de Ourique como peça central. Servia tanto a quem sonhava com um rei português como ao rei espanhol que queria parecer herdeiro de Afonso Henriques.

O homem que disse que não

Herculano não foi o primeiro a duvidar. No século XVIII, o padre Luís António Verney e o arquiteto Luís Nunes Tinoco já tinham posto o milagre em causa. Mas foi Herculano quem pagou o preço.

Em 1846 publicou o primeiro volume da sua História de Portugal. Despachou o milagre numa linha — “fábulas não menos absurdas que brilhantes” — e desmontou o juramento nas notas do fim do livro.

Bastou. Choveram críticas nos jornais e sermões nas igrejas. A 30 de junho de 1850, Herculano respondeu com uma carta pública ao cardeal-patriarca de Lisboa, D. Guilherme Henriques de Carvalho, chamada Eu e o Clero. Seguiu-se uma guerra de panfletos que durou anos.

Ele não recuou. Ir aos papéis, ver o que lá está, dizer o que é documento e o que é lenda — é mais ou menos o que este site tenta fazer. Com menos panfletos.

O que ficou

Ourique foi uma vitória a sério sobre cinco chefes muçulmanos — «reis», chama-lhes a fonte da época —, de um conde que no ano seguinte se pôs a assinar como rei. O resto — o ermitão, a campainha, o Cristo na cruz, o juramento — foi acrescentado por quem precisava de um começo mais grandioso.

Contamos a lenda na mesma, porque as lendas também dizem quem somos. Esta diz que, durante séculos, um país pequeno precisou de acreditar que tinha sido escolhido.

Herculano deixou o remate escrito na advertência do livro: “se não tivermos o generoso ânimo de dizermos a nós próprios a verdade, os estranhos no-la virão dizer com mais cruel franqueza.”

Antes · 1139

Um conde ganha uma batalha a cinco chefes muçulmanos e, no ano seguinte, já se chama rei. Quase trezentos anos depois, alguém acrescenta-lhe Cristo no céu.

Hoje · 2026

Olha para a bandeira. No meio do escudo há cinco escudos pequenos azuis, as quinas, cada um com cinco pontos brancos. Os cronistas medievais explicaram as quinas com Ourique: cinco escudos pelos cinco reis vencidos — e, numa crónica breve de Santa Cruz de Coimbra, os pontos pelos trinta dinheiros de Judas (Camões fez as contas: só dão trinta se contares duas vezes o escudo do meio). As chagas de Cristo vieram no século XV — com o milagre. E os escudos são mais antigos do que qualquer explicação que lhes deram: já estão no primeiro selo real que se conhece, de D. Sancho I, de 1187–88.

Mesma história. Outro ponto de vista.
Nota do autor

Também eu gostava que Cristo tivesse aparecido em Ourique. Mas prefiro um país fundado por um teimoso a um fundado por um milagre — tem mais mérito.

Fontes — O que lemos de facto para escrever este capítulo. Como verificamos → Para ler mais

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