Senta-te, que esta não tem batalha nenhuma. E é por isso que é das mais importantes.
Há uma rocha em Braga, numa rua estreita perto do centro, de onde ainda sai água. Há dois mil anos, alguém mandou esculpir nela uma figura, um pequeno templo com um pássaro no telhado e umas letras. As letras dizem, mais coisa menos coisa, que foi Célico Frontão, natural de Arcóbriga, quem a mandou fazer.
Arcóbriga era outra terra, longe de Braga. Por isso os arqueólogos da Universidade do Minho chamam a Célico um imigrante. Um homem de fora que chegou a Braga e fez o que os de fora costumam fazer para pertencer — adotou os deuses da terra. A inscrição dedica o santuário a Tongoenabiago, um deus com um nome que nenhum romano conseguia dizer à primeira; muitos estudiosos acham que a figura ao lado é Nabia, uma deusa das águas. Deuses que já ali estavam antes de qualquer legião.
Mas a dedicatória está em latim.
Um forasteiro, a rezar aos deuses de cá, na língua de Roma. É a história deste capítulo inteira numa pedra só. E a família dele não se esqueceu: netos e bisnetos de Célico voltaram mais tarde à fonte para a restaurar.
A cidade que caiu do céu
Lembras-te dos brácaros, do capítulo anterior? As mulheres que lutavam sem um grito, para lá do rio Lima. Cento e tal anos depois disso, por volta de 16 ou 15 a.C., no tempo do imperador Augusto, nasceu uma cidade nova no meio daquela terra cheia de castros. Não havia castro naquele sítio — era o lugar onde a gente dos castros se juntava, com um pequeno balneário para banhos rituais. Os arqueólogos pensam que a cidade nasceu de um acordo entre Roma e as famílias importantes da terra. Fizeram-na de raiz, com as ruas a direito e em quadrícula, como se tivesse caído do céu já pronta.
Deu-se-lhe o nome dos vencidos e o do imperador: Bracara Augusta.
A ideia era simples. Em vez de obrigar as pessoas a descer dos castros, oferecer-lhes uma coisa melhor cá em baixo: mercado, estradas, água canalizada. Um século depois, a cidade já tinha termas no alto da colina da Cividade e, ao lado, um teatro — que os arqueólogos da Universidade do Minho encontraram em 1999. É o primeiro teatro conhecido numa cidade do noroeste da Península.
Não foi preciso proibir nada. Bastou que a vida fosse mais fácil em latim.
A Feliz
Mais a sul, na foz do Tejo, havia um porto muito mais antigo. Debaixo da Baixa, os arqueólogos encontraram um bairro junto ao rio, dos séculos V e IV a.C., que crescia com o comércio de gente vinda do Mediterrâneo oriental. Os romanos chamaram-lhe Olisipo.
Plínio, o Velho, um romano que escreveu uma enciclopédia no século I, fez o inventário da Lusitânia inteira — quarenta e cinco povos. Conta cinco colónias, cidades fundadas por Roma, e um só município de cidadãos romanos: uma terra que já existia e cuja gente passou a ter os direitos de quem nascia em Itália. Esse município único era Olisipo. O nome completo é o melhor que Lisboa já teve: Felicitas Iulia Olisipo. A Feliz.
O mesmo Plínio jura que Olisipo era famosa por outra coisa: as éguas de lá ficavam prenhes do vento oeste. É lenda antiga, claro. Mas fica registado.
Feliz e a cheirar a peixe. Na Rua dos Correeiros, por baixo de um banco, há 31 tanques de salga, agrupados em sete pequenas fábricas, que trabalharam do século I até meados do século V. Antes de ser fábrica, aquele chão fora cemitério dos primeiros colonos romanos — oito sepulturas, com nove pessoas, cinco delas crianças. As salgas e os molhos de peixe da Lusitânia chegavam a Roma em ânforas. Lisboa já exportava conservas dois mil anos antes da lata de sardinha.
O escravo que pagou o palco
E Lisboa teve um teatro, cavado na encosta do castelo, por baixo do que é hoje a Rua de São Mamede. No ano 57, alguém pagou para lhe renovar o palco e a orquestra, e mandou gravar uma dedicatória ao imperador da altura. Estava escrita ao longo de cinco nichos da frente do palco, de maneira a ler-se das bancadas.
O imperador era Nero.
O homem que pagou chamava-se Caio Héio Primo, e tinha um título que diz tudo: augustal perpétuo. Os augustais eram quase sempre libertos, antigos escravos que tinham ganho a liberdade e feito fortuna, mas que por causa da origem não podiam ocupar cargos políticos. Então faziam o que fazem os novos-ricos em todas as épocas: pagavam obras com o nome deles bem à vista.
Sabemos que ele próprio tinha sido escravo por causa de outra pedra do teatro. Foi posta em honra dele pelos seus libertos — e chama-lhe “liberto de Caio”. O antigo escravo tinha tido escravos, libertou-os, e eles agradeceram-lhe numa pedra. Em latim, claro.
As ruínas apareceram quando se reconstruía a cidade depois do terramoto de 1755; em 1798 um arquiteto desenhou-as, e voltaram a ser enterradas.
Ninguém decidiu nada
Ninguém decidiu que os povos daqui iam passar a falar latim. Não houve lei, nem escola obrigatória, nem dia marcado.
O latim terá chegado como chega qualquer língua que manda: pelos soldados que ficavam e casavam com raparigas da terra, pelos comerciantes que faziam as contas em latim, pelos juízes, pelos cobradores de impostos, pelos letreiros das lojas. Quem queria vender, subir na vida ou ganhar um processo, falava latim. Imagina-se que foi assim: os filhos já falavam melhor que os pais, e os netos já não sabiam a língua dos avós.
E não era o latim da prosa fina. Era o latim falado, o da rua.
O latim culto dizia equus para cavalo. Na boca do povo andava caballus, que era a palavra para um cavalo de trabalho, uma pileca. Adivinha qual ficou. Por isso dizemos cavalo, e os franceses cheval e os italianos cavallo. Com o comer foi igual: o verbo dos livros era edere, mas o povo dizia comedere, comer tudo de uma vez — e nenhuma língua românica ficou com o verbo dos livros. Até o imperador Augusto, numa carta, escreveu que tinha comido “duas bucceas” — duas bocadas, de bucca, a bochecha cheia. Daí vem a nossa boca.
Agora, honestidade: das línguas que se falavam cá antes de Roma sobrou muito pouco. Do lusitano, a sul, conhecem-se só umas seis inscrições a sério. Era indo-europeu; se era céltico ou não, os especialistas ainda discutem. Do galaico, a norte, ficaram nomes de deuses como o da fonte de Braga, nomes de lugares e de rios. Perdeu-se quase tudo — não por massacre, mas por desuso.
O que ficou
Seis séculos de Roma, e o que sobrou não foram as legiões. Foram as estradas, as pontes, o nome de Braga, a palavra cavalo e uma rocha com água a correr.
E o hábito de rezar aos deuses de cá em latim de lá. Isso, de certa maneira, nunca mais nos largou.