0.2 O rio Lima e o Lethes · c. 137 a.C.

O rio que fazia esquecer

Um exército romano inteiro parado à beira do rio Lima, com medo de se esquecer de casa. Por volta de 137 a.C.

c. 137 a.C.Rio Lima · Minho8 min English
A ponte de Ponte de Lima sobre o rio Lima
A ponte de Ponte de Lima sobre o rio Lima
Foto de Mário José Martins, Wikimedia Commons, CC BY 2.0

Senta-te, que esta tem um rio. Por volta de 137 antes de Cristo, um exército romano chega à margem de um rio no noroeste da Península. A água é limpa, a paisagem é bonita, a outra margem está ali a poucos metros. E os soldados não atravessam.

Porque aquele rio, tinham ouvido dizer, era o Lethes — o rio do esquecimento, o mesmo que na mitologia grega as almas bebiam para se esquecer da vida. Quem o atravessasse esquecia-se da família, da pátria, do caminho de volta. Ficava para sempre do lado de lá, sem saber quem era.

O rio era o Lima.

O general

O general chamava-se Décimo Júnio Bruto, e tinha chegado ali a acabar o trabalho que Roma deixara a meio.

Viriato tinha morrido havia pouco tempo, assassinado pelos próprios amigos. Mas o oeste da Península continuava cheio de bandos armados que faziam o mesmo que ele: atacavam e desapareciam nos montes. Bruto percebeu depressa que correr atrás deles era inútil. Apiano, o historiador grego que nos conta isto, diz que ele achava a tarefa difícil, vergonhosa de não fazer, e com pouca glória se a fizesse.

Por isso mudou de estratégia. Em vez de perseguir os guerreiros, foi às aldeias deles. Se lhes queimasse as casas, eles haviam de voltar para as defender.

E já agora: Bruto também foi o homem que deu terras e uma cidade aos antigos soldados de Viriato — imagina-se que para deixarem de fazer guerra. Chamou-lhe Valentia. A maioria dos historiadores acha que é a atual Valência, em Espanha — há quem tenha proposto outros sítios, mas é minoria.

Quase toda a Lusitânia se rendeu a Bruto. Quase. Quando os enviados de Bruto foram a uma cidade chamada Cinginnia propor aos habitantes que comprassem a paz, ouviram de volta que os antepassados lhes tinham deixado ferro para defender a cidade, não ouro para comprar a liberdade a um general ganancioso. Quem conta isto é Valério Máximo, um romano. E acrescenta, meio envergonhado: melhor fora que homens do nosso sangue o tivessem dito do que ouvido.

O rio

Bruto atravessou o Douro, a fazer guerra para norte, e chegou ao Lima. Apiano diz que foi o primeiro romano a sequer pensar em atravessá-lo.

O exército parou. Ninguém queria ser o primeiro a esquecer-se de casa.

O que Bruto fez está em Tito Lívio, em duas linhas: arrancou o estandarte das mãos do porta-estandarte e atravessou o rio com ele. Os soldados, vendo o general do outro lado — vivo, inteiro e com cara de quem se lembrava de tudo —, foram atrás.

Agora, honestidade: há uma versão mais bonita, que é a que se conta em Ponte de Lima. Nela, Bruto atravessa sozinho e, já na outra margem, chama cada soldado pelo nome, um a um, para provar que não se tinha esquecido de nenhum. É uma imagem perfeita. Mas não está em nenhum texto antigo — nem em Lívio, nem em Floro, nem em Apiano, nem em Plutarco. O que as fontes contam é o estandarte. E chega.

Floro, outro romano, acrescenta que Bruto só deu meia-volta depois de ver o sol a afundar-se no mar, “não sem um certo medo de sacrilégio”. Estrabão, um geógrafo grego, é mais seco: diz que o limite da campanha foi o Minho.

De onde vinha o medo

Os romanos não inventaram a lenda sozinhos. Estrabão, que escreveu mais de um século depois, conta o que se dizia: que um exército de célticos e túrdulos atravessou aquele rio, se desentendeu, perdeu o chefe e se espalhou — e os homens ficaram muito mais a norte, para lá do Minho, perto do cabo que hoje chamamos Finisterra, sem nunca voltar para casa. Como se se tivessem esquecido.

Mas há quem veja a coisa ao contrário. O arqueólogo Jorge de Alarcão acha que o nome é mais antigo do que a lenda — que vem de uma palavra da terra, anterior aos romanos, e que os gregos e romanos a ouviram como “Lethes”. Plínio, de resto, já dizia que ao rio andavam associadas “muitas lendas”. E Alarcão admite outra hipótese, menos poética: os soldados podiam simplesmente estar cansados da campanha, ou achar perigoso ir mais longe deixando para trás povos vencidos em batalha mas não na guerra. O medo do esquecimento pode ter vindo depois, para explicar.

E depois do Lima, outro rio

Depois do Lima, Bruto ainda chegou a outro rio, a que Apiano chama Nimis. Ali estavam os brácaros. E não eram gente de esperar sentada.

Apiano conta que Bruto os atacou porque lhe tinham assaltado a caravana de mantimentos. E descreve-os numa frase que é das mais duras de todo o relato: eram um povo muito guerreiro, e as mulheres pegavam em armas ao lado dos homens. Lutavam sem nunca voltar as costas, sem nunca soltar um grito.

Quando perderam, foi pior. Das mulheres capturadas, algumas mataram-se. Outras mataram os próprios filhos com as suas mãos, por acharem que a morte era melhor do que o cativeiro.

Isto não vem nas placas turísticas. Mas é o outro lado do rio.

Talabriga

Há mais uma história de Bruto que diz muito sobre a maneira romana de ganhar.

Havia uma cidade chamada Talabriga, que se rendia a Roma, voltava a revoltar-se, rendia-se outra vez. Ninguém sabe ao certo onde ficava: Plínio põe uma Talabrica a sul do Vouga, e há arqueólogos que a procuram em Águeda; Jorge de Alarcão lembra que apareceu uma inscrição de uma mulher “talabrigense” em Estorãos — aqui ao lado, em Ponte de Lima.

Quando Bruto lá chegou, os habitantes pediram perdão e entregaram-se sem condições. Bruto exigiu tudo: os desertores, os prisioneiros, as armas e reféns. Depois mandou sair toda a gente da cidade, homens, mulheres e crianças, cercou-os com o exército e fez-lhes um discurso a lembrar cada uma das traições. Os talabrigenses ficaram à espera do pior.

E então Bruto calou-se, ficou-lhes com os cavalos, os mantimentos e o dinheiro da cidade, e deixou-os voltar para casa.

Primeiro o medo, depois o perdão. Roma tinha aprendido.

O que ficou

Bruto voltou a Roma vitorioso e ficou para a história com um apelido: Callaicus, Galaico — o vencedor dos galaicos, o povo do noroeste.

E ficou-lhe uma mania. Os romanos honravam os mortos em fevereiro; Bruto fazia-o em dezembro. Plutarco, que estranhou o costume, lembra que este era o Bruto que tinha atravessado o Lethes. Cícero dá uma explicação mais prosaica: Bruto contava dezembro como o último mês do ano. Mas é difícil não pensar que o homem que atravessou o rio do esquecimento fazia questão de não esquecer os seus.

Os brácaros foram vencidos, mas não desapareceram. Mais de um século depois, quando o imperador Augusto quis fundar uma cidade nova no coração daquela terra, deu-lhe o nome deles: Bracara Augusta.

Hoje chama-se Braga.

O rio que fazia esquecer acabou por ser o rio que ninguém esqueceu.

Antes · c. 137 a.C.

Um general romano tem de atravessar um rio à frente de todos para provar aos soldados que não se iam esquecer de casa.

Hoje · 2026

Bruto voltou a Roma com o apelido de Galaico — o vencedor dos galaicos. É desse povo que vem o nome da Galiza; Estrabão já dizia que, no tempo dele, a maior parte dos lusitanos era chamada galaica. E foi nessa terra, dos dois lados do Minho, que nasceu a língua a que os linguistas chamam galego-português. O rio que metia medo aos romanos atravessa-se hoje a pé, de gelado na mão.

Mesma história. Outro ponto de vista.
Nota do autor

Os romanos tinham medo de se esquecer de casa. Nós, minhotos, temos o problema contrário: vamos para o estrangeiro e passamos a vida a lembrar-nos dela.

Fontes — O que lemos de facto para escrever este capítulo. Como verificamos →

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