0.4 Os suevos e os dias da semana · 411–585

O bispo que nos tirou os deuses da semana

Um reino germânico com capital em Braga, um rei apanhado em Portucale, e um bispo vindo de longe que se zangou com os minhotos por acenderem velas às fontes.

411–585Braga · Dume9 min English
São Martinho de Dume num retrato pintado muitos séculos depois — o quadro diz «ANNO 583», mas ele morreu em 580
São Martinho de Dume num retrato pintado muitos séculos depois — o quadro diz «ANNO 583», mas ele morreu em 580
Foto de Joseolgon do retrato na Galeria dos Arcebispos de Braga, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Senta-te, que esta vem de longe. Por volta do ano 550, chega ao Minho um estrangeiro. Na altura isto ainda não se chamava Minho nem Portugal: era a Galécia, uma terra que ia do Douro até ao fim da Galiza.

Gregório de Tours, que escreveu sobre ele uns anos depois, diz que nasceu na Panónia, mais ou menos onde hoje é a Hungria, que foi ao Oriente visitar os lugares santos e que estudou tanto que no seu tempo não tinha igual. Só que há estudiosos portugueses que duvidam desta biografia toda. Seja como for, um dia meteu-se num barco para o fim do mundo conhecido.

Chamava-se Martinho. Vai ficar para a história como Martinho de Dume, e depois de Braga. E vai ficar ligado a uma coisa que nenhum rei, nenhum exército e nenhum imperador conseguiu: mudar a maneira como dizemos os dias da semana.

Mas primeiro é preciso explicar quem mandava nesta terra quando ele chegou. Porque não eram os romanos.

Os suevos

No último dia de 406 — há quem diga 405 —, vários povos germânicos atravessaram o rio Reno, na fronteira do império, e nunca mais pararam. Uns anos depois passaram os Pirenéus. Em 411 dividiram a Península à sorte — literalmente, tiraram as províncias à sorte. A Galécia calhou a dois: aos vândalos e aos suevos. Os vândalos acabaram por partir para o sul, e à saída ainda mataram gente em Braga. Os suevos ficaram.

Fizeram de Braga a capital. A cidade que Augusto tinha fundado para os brácaros passou a ser a capital de um reino germânico.

Sabemos isto quase tudo por um homem: Hidácio. Nasceu nos anos 390 na Límia, a terra do alto rio Lima, do lado galego (é o rio do capítulo do esquecimento). Foi bispo, ao que tudo indica, de Chaves. Escreveu uma crónica do seu tempo como quem escreve um diário de guerra. Dos suevos dizia que eram, como sempre, falsos nas promessas. E pagou caro por estar no meio: a 26 de julho de 460, por queixa de uns delatores, um chefe suevo chamado Frumário prendeu-o dentro da própria igreja de Chaves. Esteve três meses cativo, voltou para casa em novembro e continuou a escrever.

Os reis suevos tiveram os seus momentos. Requiário foi, tanto quanto se sabe, o primeiro rei germânico a ser católico, e as moedas que sobreviveram mostram que foi o primeiro a cunhá-las com o próprio nome. Durou pouco. Em 456 os visigodos derrotaram-no perto de Astorga. Requiário fugiu ferido e foi apanhado num lugar a que, escreve Hidácio, chamavam Portucale. Mataram-no em dezembro.

Antes disso, a 28 de outubro desse mesmo ano de 456, um domingo, enquanto Requiário andava fugido, os visigodos entraram em Braga. Hidácio conta: igrejas arrombadas, altares partidos, o clero despido, e os lugares santos cheios de bestas de carga, gado e camelos.

O rei que pesou o filho a ouro

Quando Martinho chegou, cem anos depois, os suevos tinham entretanto passado a ser arianos — uma versão do cristianismo que Roma considerava heresia. E é aqui que Gregório de Tours conta um milagre.

O rei suevo, Carrarico, tinha o filho às portas da morte. O rei mandou a Tours, ao túmulo de São Martinho, ouro e prata no peso do filho. Não resultou. Gregório explica porquê: o rei ainda era ariano.

Então o rei mandou construir uma igreja a São Martinho e prometeu acreditar no que os padres católicos dissessem. Mandou os homens outra vez. Desta vez pesaram um pano de seda, deixaram-no uma noite sobre o túmulo, e de manhã pesava mais. Trouxeram-no de barco, como relíquia.

E, conta Gregório, no mesmo dia em que as relíquias saíram de Tours, o outro Martinho saiu da terra dele — e chegaram juntos ao porto da Galécia. O rapaz curou-se.

É um milagre, claro, contado por quem tinha todo o interesse em contá-lo. E Gregório é o único a falar desse rei: Isidoro de Sevilha dá a conversão dos suevos a outro, Teodomiro, e há historiadores que acham que eram o mesmo homem. Mas é a história que se contava.

Martinho fundou um mosteiro em Dume, às portas de Braga, ajudou a trazer o rei e a corte de volta para o catolicismo, chegou a bispo de Braga e presidiu ao segundo concílio da cidade, em 572.

Velas, pão e ratos

O que o torna inesquecível é um livro pequeno, escrito depois desse concílio, a pedido de um colega bispo. Chama-se De correctione rusticorum: sobre a correção dos camponeses. Logo na primeira página, Martinho explica que vai temperar comida de camponeses com linguagem de camponeses. E, sem querer, deixou-nos o melhor retrato da gente do Minho de há mil e quinhentos anos — porque, para dizer o que não deviam fazer, escreveu exatamente o que faziam.

Acendiam velas aos penedos, às árvores, às fontes e nas encruzilhadas. Deitavam pão nas fontes. Deitavam comida e vinho no lume, por cima do tronco a arder. Festejavam as calendas de janeiro, enfeitavam as mesas e punham louro. As mulheres invocavam Minerva ao tear. Escolhiam o dia de Vénus — a nossa sexta-feira — para casar. Liam sinais nos pássaros e nos espirros. E faziam festa às traças e aos ratos, para que no resto do ano lhes poupassem o pão e a roupa da arca. Martinho respondia com bom senso de lavrador: se o pão não estiver bem fechado na arca, os ratos comem-no, por mais festas que lhes façam.

Nos rios havia lâmias, nas fontes ninfas, nos bosques dianas. Os camponeses tinham sido batizados, sim. Mas continuavam a viver num mundo cheio de deuses.

Os dias da semana

Há uma queixa no livro que ficou ligada à língua portuguesa.

Martinho não suportava que gente batizada chamasse aos dias da semana o dia de Marte, de Mercúrio, de Júpiter, de Vénus e de Saturno. Eram nomes de demónios, escreveu. Havia até cristãos que diziam guardar o dia de Júpiter. E Martinho envergonhava-os: os pagãos paravam de trabalhar no dia de Júpiter, e os cristãos nem o domingo respeitavam. Para ele, o dia a guardar era esse: nada de lavrar, de tratar do prado ou da vinha — mas cozinhar e viajar, deixava.

Martinho não propôs nomes novos. Só se queixou dos velhos. A alternativa já existia: a Igreja contava os dias como feria secunda, feria tertia, feria quarta — o segundo dia, o terceiro, o quarto. O próprio Hidácio, um século antes, já datava assim alguns acontecimentos, e numa inscrição cristã de Braga do ano de 618 lê-se die secunda feria.

Em Espanha, França e Itália, os deuses ficaram. Os espanhóis ainda dizem martes (Marte), os franceses mercredi (Mercúrio), os italianos giovedì (Júpiter).

Aqui, a forma da Igreja venceu. Segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira. O português é a única língua românica que fez disto regra — o galego, nosso primo, ainda guarda as duas formas.

Agora, honestidade: não há nenhum documento que diga “Martinho de Dume mudou os nomes dos dias”. Há a queixa dele, escrita, e há o resultado. A tradição atribui a vitória dos nomes da Igreja ao seu apostolado, e é bem possível que tenha razão — mas foi coisa de séculos, não de um decreto.

O fim do reino

Martinho morreu em 580. No fim, os suevos andavam à bulha entre si: um tal Andeca tirou o trono ao rei, ainda rapaz, e fechou-o num mosteiro. Em 585 o rei visigodo Leovigildo entrou na Galécia, depôs Andeca, rapou-lhe a cabeça e fê-lo padre à força. Isidoro de Sevilha achou justo: sofreu o que tinha feito ao seu rei.

De 411 a 585 vão 174 anos — Isidoro, que fez as contas de outra maneira, diz 177. Quase dois séculos com capital em Braga. Depois, os suevos desapareceram da história quase sem deixar rasto.

Quase. Deixaram uma basílica em Dume, umas moedas, e um bispo estrangeiro que nos tirou os deuses da semana.

Os das fontes, esses, ficaram.

Antes · 411–585

Um bispo estrangeiro tenta tirar os deuses antigos da vida dos camponeses do Minho — e, segundo a tradição, consegue tirá-los pelo menos do calendário.

Hoje · 2026

Dizemos terça-feira onde os espanhóis dizem martes, de Marte, e quinta-feira onde os italianos dizem giovedì, de Júpiter — os deuses de que Martinho se queixava. O português é a única língua românica que fez disto regra; o galego, nosso primo, ainda guarda as duas formas. No Minho ainda se cantam as janeiras e há quem deite moedas nas fontes. Se há um fio direto até ao tempo de Martinho, ninguém o pode provar — mas Martinho já se queixava de costumes assim. O bispo ganhou o calendário. A rua, nem por isso.

Mesma história. Outro ponto de vista.
Nota do autor

Digo segunda-feira a vida toda e nunca me perguntei porquê. Os espanhóis têm a Lua. Nós temos um bispo chato. Prefiro o bispo.

Fontes — O que lemos de facto para escrever este capítulo. Como verificamos → Para ler mais

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