0.1 Viriato · 147–139 a.C.

O pastor que Roma só conseguiu vencer pagando a traidores

Antes de haver Portugal, houve um homem da serra que humilhou Roma durante anos. Roma resolveu o problema da maneira mais barata.

147–139 a.C.Lusitânia9 min English
A morte de Viriato, pintada por José de Madrazo em 1807
A morte de Viriato, pintada por José de Madrazo em 1807
José de Madrazo, A morte de Viriato (1807), Museu do Prado · Wikimedia Commons, domínio público

Senta-te, que esta começa mal. Ano de 150 antes de Cristo, no oeste da Península Ibérica. Os romanos andam há décadas a tentar meter na ordem um povo de montanheses a quem chamam lusitanos. O governador romano, Sérvio Sulpício Galba, faz-lhes uma proposta: se quiserem ser amigos de Roma, dá-lhes terra boa para cultivar.

Muitos lusitanos acreditam. Descem dos montes com as famílias. Galba divide-os em três grupos, mostra a cada grupo uma planície e diz-lhes que esperem ali. Depois vai ao primeiro grupo e pede-lhes, como amigos, que entreguem as armas. Quando as entregam, cerca-os com uma vala e manda entrar soldados de espada. Os lusitanos morrem a gritar pelos deuses. Galba faz o mesmo ao segundo grupo e ao terceiro, antes que saibam o que aconteceu ao primeiro.

Escaparam poucos. Um deles chamava-se Viriato.

Até Apiano, um historiador do lado romano, escreveu que Galba pagou traição com traição — os lusitanos tinham rompido um tratado —, mas fê-lo à maneira dos bárbaros, de um modo indigno de um romano. Galba foi levado a tribunal em Roma. Tito Lívio conta como se safou: quando viu que ia ser condenado, abraçou os dois filhos pequenos e o órfão de quem era tutor e falou de maneira tão comovente que o caso foi arquivado. Os lusitanos que sobreviveram foram vendidos como escravos na Gália. Viriato nunca se esqueceu de Galba.

O pastor

Tudo o que sabemos sobre Viriato vem dos inimigos. E mesmo assim gostavam dele.

Diodoro, um grego, diz que foi pastor nos montes desde criança, habituado a comer pouco, trabalhar muito e dormir só o necessário. Andava sempre armado. Falava direto e dizia o que pensava. E escreveu uma frase que podia estar numa parede: para Viriato, a maior riqueza era a sobriedade, e a liberdade era a sua pátria.

O mesmo Diodoro conta o casamento. O sogro, um homem rico chamado Astolpas, pôs na mesa taças de ouro e prata e tapetes finos. Viriato ficou de pé, apoiado na lança, a olhar para aquilo tudo com desprezo.

E houve conversa à mesa. O texto de Diodoro chegou-nos em dois resumos diferentes, e cada um guardou uma parte.

No primeiro, Viriato faz uma pergunta ao sogro:

Traduzindo — e a leitura é nossa: com os romanos, o ouro de Astolpas estava seguro. Ao dar a filha a Viriato, passou para o lado de quem não tinha nada a perder.

No segundo, Viriato fala da ingratidão e da tolice de confiar na sorte, e diz duas coisas ao sogro: que aquelas riquezas todas podiam ser de quem as levasse na ponta da lança; e que o sogro é que lhe devia agradecer, porque Viriato, «senhor de tudo», não lhe tinha pedido nada.

Também aqui a leitura é nossa: o ouro do sogro só estava ali porque Viriato deixava. O favor, quem o fazia era ele.

Depois não se sentou, por mais que lhe pedissem. Deu pão e carne aos seus homens, provou pouco, mandou vir a noiva, fez um sacrifício à maneira dos iberos, pô-la no cavalo e voltou para a serra.

O truque

Dois anos depois do massacre, os lusitanos que tinham escapado já eram dez mil e voltaram a atacar. O pretor Caio Vetílio encurralou-os num sítio sem saída. Mandaram emissários com ramos de oliveira, a pedir terra para viver. Vetílio prometeu. O acordo estava quase feito.

Foi aí que Viriato se levantou e lhes lembrou Galba.

Escolheram-no para chefe ali mesmo. Ele pôs o exército em linha de batalha, como quem vai lutar, e deu uma ordem: quando ele montasse o cavalo, todos fugiam, cada um por um caminho diferente, e encontravam-se na cidade de Tríbola. Só mil cavaleiros ficavam com ele.

Viriato montou. O exército desapareceu em todas as direções. Vetílio virou-se para o único grupo que via, os mil cavaleiros, e Viriato entreteve-o dois dias inteiros — ataca, recua, volta a atacar. Quando calculou que os outros estavam a salvo, desapareceu de noite por caminhos que os romanos não conheciam.

Oito anos

Vetílio foi atrás dele até Tríbola e caiu numa emboscada num matagal. O próprio Vetílio foi apanhado vivo — e o homem que o apanhou, sem saber quem ele era, olhou para um velho gordo, achou que não valia nada e matou-o.

Seguiram-se oito anos que Roma preferia esquecer. Oito, diz Apiano; os autores latinos contam catorze, e Diodoro onze — mas todos concordam que foi tempo demais. Viriato não fazia batalhas à romana. Aparecia, atacava, fingia fugir, voltava. O pretor Caio Pláucio, depois de levar uma tareia num monte coberto de oliveiras, fechou-se em quartéis de inverno — em pleno verão.

E Viriato fazia questão de que se visse. As togas e os feixes de varas dos magistrados romanos que capturava, espetava-os nos montes como troféus. Floro, um romano, escreveu que se a sorte o tivesse ajudado teria sido “o Rómulo da Hispânia”.

Os soldados dele vinham de tribos diferentes e, em oito anos, nunca houve uma revolta. Apiano explica porquê: Viriato ia sempre à frente no perigo e, na hora de dividir o saque, nunca ficava com a parte maior, nem quando os amigos insistiam. Dava-a aos mais valentes.

Em 140 a.C., o cônsul Serviliano cercava Erisana, uma cidade de Viriato. Viriato entrou lá de noite e, ao nascer do dia, caiu em cima dos romanos que cavavam as trincheiras do cerco e empurrou o exército romano para umas ravinas sem saída. Podia tê-lo destruído. Não destruiu: preferiu acabar a guerra. Deixou os romanos ir em troca de um tratado, e Roma ratificou-o. Viriato passou a ser oficialmente amicus populi Romani, amigo do povo romano, e os seus homens ficaram com as terras que ocupavam.

Um pastor lusitano tinha obrigado Roma a assinar a paz.

E agora a parte que ninguém te conta na escola

Roma não aguentou a vergonha. O cônsul seguinte, Quinto Servílio Cepião — irmão do que tinha assinado a paz —, escreveu a Roma a dizer que o tratado era indigno do povo romano. À força de cartas, conseguiu a guerra de volta.

Viriato mandou três dos seus amigos de mais confiança negociar a paz com Cepião: Audax, Ditalco e Minuro. Cepião encheu-os de presentes e promessas. Comprou-os.

Viriato dormia pouco e quase sempre de armadura, para estar pronto a qualquer hora — e por isso os amigos podiam entrar na tenda de noite. Os três entraram, como quem traz uma notícia urgente, logo depois de ele adormecer. Mataram-no com uma facada na garganta, a única parte que a armadura não cobria. A ferida era tão discreta que ninguém deu por nada.

De manhã, os homens dele estranharam que o chefe dormisse tanto. Quando entraram, encontraram-no morto, de armadura vestida.

Os três já estavam no acampamento de Cepião, a pedir o resto do pagamento. Cepião disse-lhes que ficassem com o que já tinham recebido. O resto, que o fossem pedir a Roma.

E é daqui que nasce a frase mais famosa desta história:

Roma não paga a traidores.

Agora, honestidade: nenhum texto antigo tem esta frase. A resposta que Apiano regista é a do “vão pedir a Roma”. Eutrópio, no século IV, chega mais perto: quando os assassinos pediram o prémio, a resposta foi que Roma nunca gostou de generais mortos pelos próprios soldados. E Orósio, no século V, diz que foi a única coisa em que os romanos se portaram com coragem nesta história: julgaram os assassinos indignos de prémio. A versão curta e perfeita foi polida séculos depois.

E Roma também não ficou bem na fotografia. Valério Máximo, um romano do tempo de Tibério, escreveu que a morte de Viriato carregava uma dupla traição: a dos amigos que o mataram e a do cônsul que a mandou fazer. E rematou: Cepião não mereceu a vitória. Comprou-a.

O funeral

Os lusitanos queimaram-no numa pira altíssima. Cavaleiros e infantes armados marcharam à volta do fogo a cantar-lhe os feitos até a última chama se apagar. Depois houve combates junto ao túmulo — Diodoro diz que duzentos pares de guerreiros.

O sucessor, Tântalo, aguentou pouco e rendeu-se. A guerra de Viriato acabou ali. A Lusitânia, essa, ainda não estava domada.

Então porque é que isto é o episódio zero?

Porque Viriato não era português. Não havia Portugal nem português, e a Lusitânia daquele tempo não é o Portugal de hoje — nem tinha fronteiras fixas.

Mas há histórias que um país escolhe para contar a si próprio. Muitos séculos depois, quando Portugal precisou de um herói que viesse antes de tudo, foi buscar o pastor para quem a liberdade era a pátria, que disse não a Roma e só foi vencido por traição. É o enredo que vamos ver neste site, vezes sem conta: um sítio pequeno que prefere ser seu.

Ainda nem existíamos, e já tínhamos a história.

Antes · 147–139 a.C.

Um pastor da serra derrota exércitos romanos durante anos. Roma só se livra dele pagando a três amigos para o matarem enquanto dorme.

Hoje · 2026

Ainda nos chamamos lusos: lusófonos, luso-descendentes, a Lusitânia em nomes de clubes, cafés e companhias de seguros. E os espanhóis também o querem — em Zamora, a tradição diz que as oito tiras vermelhas da bandeira da cidade são as vitórias dele. Dois mil anos depois, ainda há quem discuta de quem é o pastor.

Mesma história. Outro ponto de vista.
Nota do autor

“A liberdade era a sua pátria.” Escreveu-o um grego, sobre um inimigo de Roma, há dois mil anos. Não conheço melhor definição de português — e ele nem sequer o era.

Fontes — O que lemos de facto para escrever este capítulo. Como verificamos → Para ler mais

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