Senta-te, que esta é a última antes do princípio. Ano de 711, sul da Península. Um exército vindo do norte de África, comandado por um chefe chamado Tárique, à frente de tropas berberes, desembarca junto a um rochedo que ainda hoje tem o nome dele: Gibraltar, Jabal Tariq, o monte de Tárique.
Rodrigo, rei dos visigodos — os mesmos que, no capítulo anterior, tinham engolido o reino dos suevos —, vai ao encontro dele. Perde a batalha (junto ao rio Guadalete, diz a versão tradicional; o sítio exato ainda se discute) e desaparece. Em poucos anos, quase toda a Península está nas mãos dos muçulmanos.
Quase toda. Lá em cima, nas montanhas das Astúrias, um grupo de nobres godos e montanheses recusa render-se. Vão demorar séculos a descer.
O lugar a que chamam Portucale
Para perceber de onde vem o nome Portugal, é preciso voltar atrás uns duzentos e cinquenta anos.
No capítulo anterior, o rei suevo Requiário fugiu dos visigodos e foi apanhado no Porto. O cronista Hidácio, quando conta o episódio, escreve que o apanharam num lugar a que chamam Portucale.
É das primeiras vezes que o nome aparece escrito.
Portucale era o porto de Cale. Onde ficava Cale discutiu-se durante muito tempo: uns punham-na na margem sul, onde hoje é Gaia; a arqueologia mais recente encontrou o povoado mais antigo no alto do morro da Sé do Porto, a Penaventosa. O mais provável é que o nome acabasse por servir às duas margens do rio.
E o que queria dizer Cale? Ninguém sabe ao certo. Há quem diga que vem dos galaicos, há quem fale numa deusa, há quem jure que é grego e quer dizer bonito. Ninguém provou nada. Mas o nome colou-se ao porto, depois à cidade, e depois à terra à volta.
Portucale. Portugale. Portugal.
Terra de ninguém
Os muçulmanos chegaram ao norte, mas não ficaram muito tempo. Por volta de 741, rebentou no al-Andalus uma grande revolta dos berberes contra os chefes árabes, e o poder muçulmano não voltou a firmar-se a norte do Douro. O norte ficou sem dono.
Quem aproveitou foi o rei das Astúrias, Afonso I. A crónica escrita na corte dos seus descendentes diz que, com o irmão Fruela, tomou Lugo, Tui, o Porto, Braga, Viseu, Chaves e muitas outras cidades, matou os árabes que lá encontrou e levou os cristãos consigo para as montanhas.
Daqui os manuais tiraram uma história muito arrumada: o vale do Douro ficou vazio, uma muralha de deserto entre cristãos e muçulmanos, e durante mais de cem anos, entre o Minho e o Douro, não teria vivido ninguém.
Há um problema com essa versão
Essa história está, muito provavelmente, exagerada.
Mas não é assunto arrumado: os historiadores discutem isto há mais de um século. Alexandre Herculano leu as crónicas mais antigas e acreditou no deserto. Alberto Sampaio achou-o impossível — mas apoiou-se em documentos que a crítica teve de rejeitar, por serem falsos ou mal copiados. Ainda há historiadores que defendem o despovoamento.
Só que a arqueologia mudou a conversa. Luís Fontes, da Universidade do Minho, resume assim o que hoje é aceite pela maioria: o território entre o Minho e o Douro manteve boa parte da sua gente até à segunda metade do século IX, sem nenhum poder de Estado a funcionar. A terra não ficou vazia: ficou sem rei.
Ou seja: quando os cristãos do norte desceram para “repovoar”, em muitos sítios encontraram gente. Era gente sem papéis, sem senhor e sem cronista — e por isso, durante muito tempo, invisível para a história.
A certidão de nascimento
Em 868, um nobre ao serviço do rei Afonso III das Astúrias desceu até ao Douro e tomou posse de Portucale. Chamava-se Vímara Peres.
Sabemos isto por uma linha. Uma só, em latim. A que temos foi copiada no princípio do século XII para uma folha em branco de um livro do mosteiro de Lorvão. Mas o historiador francês Pierre David acha que o copista estava a passar notas escritas por um monge do próprio século IX — por alguém que viveu aquilo:
Prenditus est Portugale ad Uimarani Petri. Foi tomado Portugal por Vímara Peres.
Foi o mesmo Pierre David que chamou a estas notas — esta e a de Coimbra, dez anos depois — “a certidão de nascimento de Portugal”. Repara: a linha não dá título nenhum a Vímara, ao passo que, na nota de Coimbra, a mesma mão chama “conde” a quem tomou a cidade. Os historiadores chamam a Vímara o primeiro conde de Portucale; o que é certo é que foi o primeiro senhor que conhecemos daquela terra.
Não foi uma batalha épica. A isto chamava-se presúria: chegava-se a uma terra sem dono, punha-se lá uma guarnição, organizava-se a gente que lá vivia, e a terra passava a ser do rei — e de quem a tomara.
Essa Guimarães
Mais para o interior há uma terra que nos documentos aparece como Vimaranes — um nome feito a partir de um nome de pessoa germânico, Vímara: «a quinta de Vímara». Com os séculos, passou a Guimaranes, e Guimaranes a Guimarães.
Sim. Essa Guimarães.
Se esse Vímara era o próprio Vímara Peres, já é outra conversa. E aqui, honestidade: tem quase de certeza o nome de um Vímara. Que fosse este, é o mais provável — a terra mais importante do condado a chamar-se “de Vímara”, como o primeiro senhor, seria coincidência a mais. Mas nenhum papel o prova, o nome Vímara não era raro na época, e houve historiadores, como Torquato de Sousa Soares, que duvidaram que fosse o mesmo.
Em 873, outra linha do mesmo livro: o rei chegou a um sítio chamado Varna e, ao sexto dia, Vímara morreu. Onde fica Varna? Ninguém sabe ao certo. Pierre David achava que era o nome antigo do morro de Guimarães — e que Vímara morreu ali, em casa. Outros historiadores não concordam.
O resto do condado
Os senhores que vieram depois mandaram naquela terra durante dois séculos, umas vezes obedientes aos reis de Leão, outras nem tanto. Uma condessa chamada Mumadona, viúva de um deles, fundou em Vimaranes um mosteiro e, mais tarde, mandou erguer um castelo — por medo dos “gentios”, escreveu ela. Esse castelo, a que já então chamavam de São Mamede, é o avô do Castelo de Guimarães. Em 1016, os normandos — vikings — chegaram ao castelo de Vermoim, ali ao lado, em Famalicão.
O último desta linhagem, Nuno Mendes, morreu em 1071 em Pedroso, entre Braga e o Cávado, a combater o rei da Galiza. Vinte e cinco anos depois, em 1096, o rei de Leão deu o condado a um cavaleiro francês chamado Henrique, casado com uma filha dele, Teresa.
Entre os filhos, um rapaz. Já lá vamos.
O fim do princípio
Vímara Peres não sabia que estava a fundar coisa nenhuma. Para ele, Portucale era um porto, uma terra entre dois rios que convinha segurar.
Mas a terra já tinha o nome. E já tinha Guimarães. E duzentos e sessenta anos depois, num campo ao pé de Guimarães, um rapaz de dezanove anos ia à guerra contra a própria mãe por causa daquela terra.
A Temporada 0 acaba aqui. A história, essa, começa no capítulo 1.